Eu sou/ Consciência coletiva

Consciência é absoluta. Está em tudo o que existe e se processa por incontáveis maneiras.

Tudo é expressão desse fenômeno, o universo inteiro e seu movimento de expansão.

O tempo estende como um tapete que desenrola, o corpo envelhece, movimenta-se em direção ao não existir, as experiências, os significados, as pessoas que vem e vão, histórias que se conectam, se completam, expandem.

Se o autoconhecimento é um processo absolutamente individual, ele só pode crescer como consciência ao projetar-se no coletivo e na experiência com os contrastes.

Consciência não é um “saber”, como se fosse apenas um acumular de informações.

Cada célula carrega todas as informações do corpo, cada humano, células desse universo, carrega geneticamente os significados da existência.

Nossa percepção é blindada pela cultura que estabelece padrões de pensamentos e estimula na massa o individualismo, até como ferramenta do consumismo. Nos transformamos em seres egocêntricos, tentando incansavelmente saciar necessidades que dificilmente serão questionadas.

Nesse fluxo perdemos a oportunidade de desenvolvermos a consciência de que somos parte do todo. Mas isso não pode ser pensado sob a perspectiva do ego, ou seja, “sou” o todo ou não “sou” nada. Antes de partir para o “sou” preciso viajar pelo “eu”.

Talvez nos falte a referência do que significa ser parte, ou melhor, expressão do todo.

A experiência do “ego” habitado no corpo se desenvolve na medida que se abre para a diversidade da existência, incluindo as experiências chamadas negativas ou dolorosas. Sob uma perspectiva mais ampla, bem e mal se relativizam diante do olhar que deixou de referenciar-se em apenas si próprio e passou a interpretar-se como parte do todo.

Ajuda entender quando pensamos na experiência do tempo.

O tempo é absoluto, mas nossa relação com ele é relativa. Só podemos percebê-lo através do passado (uma memória), do presente (que nunca é), e do futuro (uma miragem).

Não estamos presos ao tempo, pelo menos mentalmente, mas nosso corpo está (ele é finito), indicando uma existência ambivalente, temporal e ao mesmo tempo atemporal.

Existimos na ambivalência do bem e do mal, do ser e do ter, do corpo e da consciência, da vida e da morte.

Vemos parcialmente. Desenvolvemos nossas crenças, nossos mitos, nossos dogmas. Enxergamos por frestas por que não somos inteiros, somos parte, pelo menos enquanto humanos.

Interpretamos conforme a mínima perspectiva de onde vemos. Vale lembrar que o próprio conceito de “coletividade” parte da visão fragmentada, pois propõe a somatória de muitos.

Por isso quando me refiro à consciência coletiva, estou usando uma linguagem imprecisa como toda linguagem, mas que tenta se aproximar de que todos nós, tudo o que há, houve e haverá são expressões de uma coisa só.

Mas o que seria essa “coisa só”?

Toda tentativa de explicação reduzirá o fenômeno aos limites da linguagem e do pensamento, mas isso não impede de tentarmos expandir o conceito.

Chamamos de filosofia, religião, ciência, os rituais, a arte, a política, a intelectualidade, as relações de maneira geral, são movimentos dos indivíduos em busca do todo, o todo mais amplo, o todo que é.

Ao todo damos nomes: Deus, vida, energia vital, existência, universo, mas talvez o “eu sou” se aproxime disso. “Eu sou” conecta nossa ambivalência: “eu” (ego) – “sou” (existência/ser).

Eu sou muitos. Eu sou todos. Eu sou tudo. Eu sou o todo projetando-se em experiências individuais, como as gotas que são o oceano e o oceano que são gotas, as células que são corpo e os corpos que são multidão.

Tudo em constante e ininterrupto processo de comunicação, se tocando, conectando.

Cada pequena experiência se correlaciona com o todo. O todo, manifestação do que é.

O compositor intui a vida e transforma aquela experiência em música. O mesmo faz o poeta com as palavras, o casal que se ama, a mãe que amamenta o filho, alguém que se identifica com quem nunca viu e resolve ajudar, expressões cotidianas de um mesmo fenômeno. Chamamos de amor, de arte, de intuição, damos nomes e diferentes significados para micro expressões de algo absoluto, que está em toda parte.

O macro se projeta no micro. O grão de areia traz mistérios do universo, a gota d´agua carrega segredos que um dia a ciência descobrirá.

Mas quais são as implicações disso? Há alguma razão para que as coisas sejam como são?

Não posso responder no absoluto. Mais uma vez, toda tentativa de definir esse fenômeno em uma explicação seria reduzi-lo. Entender as implicações “macro” dessa experiência exigiria acesso a parâmetros que não cabem em linguagem, em crenças, em paradigmas culturais, mesmo no mais profundo dos pensamentos.

Nenhum de nós sabe o que é o infinito, a atemporalidade, a perfeição, a não ser por nossos filtros científicos, religiosos ou éticos.

Mas o macro se projeta no micro, então deve haver representações que caibam em nossas compreensões, pelo menos em parte.

Talvez as escolhas individuais, os significados que damos as coisas seja nossa parte nesse processo. O ato de criar, de relacionar-se, de amar, de sofrer, de esperar, de desiludir, de querer, de deixar de querer, de viver, de morrer, abrem portas de acesso aos movimentos interiores que ainda não tínhamos nominado.

Como o universo desconhecido existia em nós como potencial, mas agora, a partir de uma experiência, ganhou densidade, nasceu em significado.

Não somos as experiências que temos, mas os significados que damos. É isso que nos projeta em direção ao campo da consciência e, esse movimento, tem o poder de expandir um indivíduo do “eu”, para o “sou”. Para ser, preciso dos outros. “Eu” para comigo, “Sou” para com todos. Coletivo. Diminuo e o todo vive em mim.

Os rios, a natureza, nossas artérias, nossas relações, conexões neurais, emocionais, humanas, nossos corpos como selvas, nossa mente como céu, nossos amores como chuva, nossa vida como Deus.

Deus (e os diferentes nomes que damos) símbolo que usamos para representar essa experiência, precisa deixar de ser ícone e diluir-se nos significados cotidianos para que as gotas se reconheçam oceano e as células corpo, para que que os significados evoluam da infância egocêntrica para a maturidade coletiva, para que reconheçamos a importância de cada micro experiência na construção de uma espécie de consciência do universo, que não para de se expandir, seja em suas dimensões para o lado de fora, seja nos próprios significados para o lado de dentro, no universo que cada um de nós é.

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