Todos os meus filhos

Andei pensando sobre quantos filhos já tive.
Registrado, biológico, apenas um, mas, quantos filhos meu filho já foi? Todos os pais, todas as mães, são pais e mães de muitos e serão dos tantos quantos seus filhos vierem a ser.
Quantas esposas? Quantos maridos? Quantos irmãos? Quanta gente morando em corpos que não se repetem!
Posso vê-los todos os dias, chamá-los pelos nomes de sempre fingindo que os conheço. Mas são tantos… Sou pai, sou marido, sou filho, sou irmão, sou amigo, sou parente, sou colega de uma infinidade de gente, sou outro, diferente de ontem, a caminho de um dos que ainda não sou.
Essa fachada que muda e abriga tantos olhares, impressões em formação, reflexos de movimentos incessantes, sutis, que me modificam sem que eu perceba e, de alguma maneira me desafia a amar a todos quanto puder, mesmo que às vezes odeie.
Se odeio, consola pensar que o alvo do ódio nada mais é do que um breve fragmento dos tantos que desconheço e que potencialmente amaria, se reconhecesse.
Ninguém ama por completo e não há quem abrigue todos os ódios. O que vemos são passageiras expressões cotidianas de seres múltiplos, infinitos, que não fazem ideia que hoje morrerão e, amanhã, nascerão outros.