Os sinais. (Um conto)

Olhando de longe e no escuro ele parecia um monte de feno. Tinha olheiras permanentes e sua pele aquela cor que os bebados tem. Brincava com pedaços de madeira, jogando sem força para o cachorro que parecia não se cansar nunca.

Depois chegou o magro com mãos grandes e dedos longos, olhava como se estivesse com a cabeça em outro planeta e tinha mania de fazer um irritante “hã hã” enquanto alguém lhe dizia alguma coisa que não lhe interessava.

Sentou-se ao lado do gordo e não disse nada. Com o tempo os barulhos dos passos apressados do cachorro, os latidos de animação, a respiração ofegante, foram ficando mais baixos do que os pássaros que aninhavam-se saudando o fim da tarde. Raios de sol alteravam a luminosidade, empurrando as sombras, envolvendo as folhas e depois indo embora, clareavam pequenos pontos da terra que logo em seguida escureciam.

Um pássaro noturno atravessa o espaço entre duas árvores gigantes e um dos homens, o gordo, que até agora a pouco olhava o cãozinho dormindo em seu pé fala com voz grave a abafada:

“Você não sabe, mas estou para morrer.”

O magro olha para ele com aquela cara que não vê e só responde com “hã hã”.

“Tenho umas dores esquisitas aí, umas tonturas, essas coisas de corpo velho. No começo não liguei, sabe como é, quando a gente vai atrás a doença gosta e começa a aparecer tudo de ruim. Quando era meninote tive uma dessas doenças de moleque e a Sra Síndoch, acho que era assim que falava aquele nome dos estrangeiros, veio com uma conversa de levar pro doutor, dar remédio e só sei que quase parti dessa pra melhor ainda de calça curta.

Depois me recuperei e fiquei forte como um touro, até que agora fiquei ruim de novo.” Ele mexe no cachorro que treme uma das patinhas, talvez estivesse sonhando, pega um dos pedaços de madeira que ficou no chão e olha para o colega que só balança a cabeça.

“Semana passada tive um pesadelo e uma dona enorme, parecida com a Sra Síndoch só que maior e mais morena, apareceu e disse que veio me levar. Depois senti uma tremedeira dos pés a cabeça e acordei todo suado, mas ainda assim não levei a sério. Na manhã seguinte nem pensava mais na história até que, tomando uma com o pessoal, ouvi alguém falando que quando a morte quer nos buscar ela nos avisa nos sonhos. Você acredita nisso, não?”

“Hã hã”. Limitou-se o amigo em responder.

“Eu também não, mas a história não termina ai. Quando ouvi aquela conversa de morte dei um jeito de ir embora logo e pensar em outra coisa. Encontrei o Ze na rua, falei com o Sanchez e continuei caminhando junto com o Fedido que agora até dormiu de tanto brincar. Já ia até me esquecendo disso quando, de novo ela, me lembrei da Sra Síndoch que vivia falando no tal pássaro da morte. Sempre que ela via um pássaro noturno, fazia uma expressão de bruxa velha e falava com voz monstruosa que ele estava indo buscar alguém. Sempre achei tudo balela, mas agora são muitas coincidências ao mesmo tempo.” Uma tosse prolongada deixa suas bochechas mais vermelhas e interrompe a fala assustada.

“E o que isso tem a ver com sua morte?” O amigo magro resolve falar com tom levemente irritado e olhar de desdém.

“Você não percebe?”

“Hã hã”

“São sinais, meu colega, são sinais. Se fosse só uma coisa isolada não teria importância, mas junte-se as dores o sonho com a Sra Sindoch aumentada, a conversa no bar sobre a morte e agora esse pássaro que quase sujou nossas cabeças”

O outro fica calado.  Simon olhou para o colega que fez mais um ou dois “hã hã” esperando que dissesse alguma coisa, mas ele só acendeu um cigarro enquanto olhava para a lua, forte, clara, iluminando tudo a volta.

Havia barulho de grilos e insetos na mesma quantidade das estrelas que pipocavam em toda a parte do céu que rapidamente se desenrolou sobre os dois em silêncio.

Fedido acordou com o barulho de um bichinho que passou correndo mas não deu muita bola, nem ouviu um latido distante e insistente. Levantou uma das orelhas e se coçou antes de deitar a cabeça na bota de Simon e voltar a dormir. Lá longe o farol de um carro corta a estrada em velocidade, depois some.

“Vai ficar ai a noite toda?” O homem magro se levanta olhando para o gordo que não ouve. Ele parece fixado em suas ideias enquanto olha o horizonte apagado e murmura: “Ninguém mais vê os sinais. Ninguém enxerga mais nada.”

O outro ignora. Passa as mãos na calça amassada, dá uma tragada e vai embora pensando em outra coisa. Atrás dele a silhueta encorpada parecendo um monte de feno ou de terra ou quem sabe um pequeno monte. Falava baixo com tom lamentoso, balançando a cabeça gorda sobre o papo mole. “Os sinais, ninguém mais vê os sinais.”

Joana, a credora do mundo

Joana era credora do mundo. No dia em que completou quarenta anos morando na casa dos pais, aceitou que morreria sozinha.

Não que fosse feia ou não soubesse conversar, mas, não me pergunte por que, até aquela idade nunca tinha tido alguém. Tudo bem, se você contar o Isaque como sério só porque, entre idas e vindas, conviveram por quase um ano, ainda que ele nunca tenha assumido a relação, então Joana só teve um namorado: o Isaque. Mas isso foi há 5 anos, era mais nova, e , coitada, cheia dessas ilusões que as meninas de hoje tem.

Foi em uma madrugada de sábado que ele a deixou e sumiu.

Melhor assim ! Se estivessem juntos, seria mais uma a engrossar as estatísticas de infelizes.

Acreditar que namoraria, casaria, teria filhos e, bingo: seria feliz ? Santa ingenuidade… Ou será que é exagero dizer que o número de separações aumenta todos os dias e muitos dos que se mantém casados o fazem por comodidade ? Você acha que o risco de, ao amar, não ser correspondido ou,pior, ser traido depois, justifica a tentativa?

Não !- dizia Joana- melhor ficar como estou porque, além de tudo, poupo lá na frente uma criança de sofrer. Enquanto Joana pensava, o barulho de gente lá fora misturava com os sons típicos do domingo no bairro : carros chegando com visitas, crianças correndo na praça, rádios inconvenientes…

Quase duas da tarde e o povo já quer festa ! Será que não tem nada de útil para fazer ? Vivem como se a vida durasse para sempre, como se merecesse comemoração, como se valesse a pena.

Um jovem casal toca a campanhia da vizinha. Esses dois…- resmunga Joana- depois que o William casou vem duas vezes por mês encher a paciência da Dna Mercedes. Já não teve que aguentar a vida inteira, agora tem que ser simpática para a Rose só porque é sua nora.

Olha lá ! Quanta hipocrisia, beijinho, sorrisinhos…Por isso eu digo, melhor ficar sozinha ! Assim evito minha família de constrangimentos, tendo que ficar fazendo política com genro a vida toda. Será que as pessoas não percebem ? Só procuram umas as outras por fraqueza e convenção social.

Quem não casa é mal falado. Até político é atacado agora por adversária porque não tem filhos ! Faça-me o favor…por isso eu digo sempre: Eu quero é morrer sozinha, fazendo o que der na mente e na hora em que quiser.

Melhor ser mal falada do que ficar chorando por causa de homem, deus que me livre ! Prefiro o meu canto, meus livros, meu quarto, minha cama…trrrrimmmm Telefone em pleno domingo ?

Os pais tinham saído, o jeito era sair da janela e atender ao maldito telefone antes que arrebente de tocar. trrrrimmmmm…. Eita povo chato ! Se ligam para a casa dos outros em pleno domingo é porque ninguém se respeita mais….trriimmmm….

-Alô !- atendeu rispidamente

Silêncio do outro lado.

– Alô! – mais rispida ainda.

– Oi.- alguém vacilante responde.

– Oi o que? Quem ta falando ?

– Joana ?

– Quem é?

– É a Joana ?

– Caramba , quer me irritar no domingo ta conseguindo ! Sou eu sim,quem é ?

– Sou eu… o Isaque.

Silêncio.

– Alô ?

– Isaque ?

– Desculpa Joana, pensei o dia inteiro. Na verdade tenho pensado há cinco anos e acho que temos muito a conversar…

Ela fica muda.

– Você está me ouvindo ? ele pergunta.

– To.- com um restinho de voz.

– Você pode desligar o telefone agora em minha cara, vou entender e nunca mais te ligar. Mas quero que saiba que há cinco anos eu me perdi. Achei que o caminho de sempre me levaria para onde sempre quis mas, me perdi. Nesse tempo tentei remontar as pecinhas do quebra cabeça da minha vida, fiz de tudo para encontrar por onde seguir e, a estrada sempre passava por você. Sinto sua falta e quero muito te ver.

Ela ainda está quieta.

Isaque continua:

– E quero que seja hoje. Preciso pegar o caminho certo, sentir que estou voltando pra casa.

Joana respira, fecha os olhos, engole seco e diz :

– Daqui uma hora na praça do por do sol ? – Estarei lá.

Joana, pernas bambas, respiração ofegante, pensamento e coração disparados vai até a mesa, pega a chave da porta e segue em direção ao por do sol.

Enquanto caminhava, nem percebia que os barulhos tinham mudado e o cenário típico de domingo parecia feliz. Talvez a madrugada de sábado tenha terminado.

Talvez, fosse domingo de novo.

Em casa.

Em fração de segundos, revi tudo:

A luz forte, a falta de ar, os cheiros que nem me lembrava.

Os primeiros sinais de consciência, as duvidas, os medos da noite. Ouvia meu choro agudo e suplicante, sabendo que vinha de um tempo que ficou lá atrás, mas agora, para minha surpresa, jorrou como se nunca estivesse ido embora.

Tudo girava.

A velocidade era espantosa, mas o que dava vertigem era a sensação de sair de um tempo e cair em outro, como se todos os tempos existissem ao mesmo tempo.

Sentia como se não houvesse fronteiras, tudo acontecia em um segundo.

Meus amigos ! Lá estavam os primeiros, aqueles que nem me lembrava, depois vieram o Guto , o Nando e o Rafa: todos corriam, gargalhavam, mas não me viam.

Enquanto as imagens se esvaiam como areia, eu ouvia vozes que, por mais que me parecessem familiares, não conseguia identificá-las ou sequer entender o que diziam.

Tinha muito vento também. Quase como se eu estivesse no meio de um vendaval.

De repente era outro tempo: Eu estava em uma estrada a noite, no rádio do carro uma música do Jonny Rivers, meu coração batia descompassadamente.

Antes que pudesse entender o que era aquilo, apareci em uma praça. Crianças brincavam e eu me sentia angustiado.

É como se estivesse voltado a tarde da perda.

Mas não deu para sentir nada tamanho a velocidade em que os cenários se alteravam.

Rostos, cheiros, paisagens, sensações, iam e vinha, quase como uma agulha de uma costureira que fura aqui, passa linha alí, vai e vem até que a costura esteja pronta.

As coisas começavam a fazer sentido.

Passeando entre elas, olhando minha vida daquele ponto, senti como se tudo fizesse parte de uma coisa só.

Olhava as grandes alegrias e as terriveis tristezas como fruto de uma única coisa que, no fim das contas, me trazia até aquela hora.

As imagens foram sumindo.

Me sentia leve e a intensidade das emoções que acabara de reviver estavam diminuindo, cedendo lugar a uma espécie de êxtase.

O vento se aquietou, as vozes se calaram e agora tudo era silêncio e, no silêncio, tinha paz.

Acolhimento. Talvez seja a melhor descrição.

Abri os olhos lentamente e uma senhora grande e negra com olhos penetrantes , sorriso que reproduzia a mais intensa e sincera felicidade veio em minha direção.

Eu não sabia onde estava, mas sabia que era alí o meu lugar.

Ela me abraçou.

“Estive contigo o tempo inteiro, cuidei de você em cada instante e agora você voltou pra casa”- disse a senhora , agora me olhando com amor quase palpável.

“Onde estou ? O que eu tenho que fazer? ” – perguntei confuso, mas quase esperando a resposta que viria:

“Você já fez. Alías, quem fez fui eu e o que eu quero é o que sempre quis: Que você descanse em mim. Tudo o que você viveu contribuiu para que chegasse até aqui.  Essa é sua casa.”

As memórias ficaram para trás. Já não importava mais o que tinha sido porque agora tudo estava no lugar.

-Quem é você ? perguntei.

-Eu sou, e isso basta.

-Eu nunca ví a senhora, mas sinto como se sempre tivessemos sido íntimos.

-Sempre fomos porque você veio de mim. Sua essência é a minha e nunca houve nada que não saisse de mim.-  sua voz soava como música. Quando ela falava, parece que o mundo de aquietava.

– Já nos vimos antes?- eu ainda estava confuso.

– De varias maneiras. Com vários rostos, em varios sons, o tempo todo.

Ela já não tinha mais a mesma fisionomia. Seu rosto já não se parecia mais com homem ou mulher, apesar de traços humanos.

– Você é Deus ?

– Me chamavam assim também.- ela continuava sorrindo.

– Então você é Deus ! concluí.

Ele ( ou ela?) sorriu acolhedoramente, chegou mais perto e disse:

– Sou quem sempre fui. Deus é o nome que escolheram me chamar, mas Eu Sou.  E você é, em mim.

– Ainda não entendo- tive que confessar.

– Você ainda está cheio de conceitos errados. Esperava encontrar um velho justiceiro que agora leria seu juizo e determinaria seu destino eterno. Não sou assim. Nunca fui. Você está em casa e todas as suas angústias passadas tinham a ver com o fato de que estava longe daqui. Mesmo assim, sempre estive contigo e  minha morada sempre foi em seu coração. Não existe separação entre nós.  Nunca existiu.

Eu não conseguia mais falar. Ele continuou:

– Agora é hora de se desvencilhar de suas concepções religiosas. Daqui a pouco você verá muitas coisas que não se parecem com o que via nas casas de pedra, que diziam ser minha casa. Verá muitos homens e mulheres diferentes daqueles que se proclamavam meus embaixadores. Aqui não há limite de tempo e espaço e nem separação. Aliás, sempre foi assim. Experimentará a plena sensação de unidade e saberá que faz parte de tudo.

Enquanto falava, sua fisionomia se humanizava.

Agora tinha rosto de homem com feições palestinas.

– Venha, vou te contar o que quiser saber. Chegou a hora de conhecer a verdade e ela te libertará- Ele caminhava e fiquei olhando por alguns instantes.

Não parecia ser diferente dos outros palestinos a não ser pelo seu olhar que me descortinava a alma.

Ele sorriu. Parecia saber o que eu estava pensando.

Não consegui mais resistir e fui em sua direção sabendo que tinha muito a ouvir:

– Quem me vê, viu o que precisava ver.  Os que são meus, sempre reconhecem minha voz.

Segui caminhando , ouvindo atentamente e, apesar de não saber exatamente onde estava, sentia nitidamente que finalmente estava em casa.

A volta.

De repente as pessoas foram chegando.

 

Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta:

 

-Pelo menos não me incomodarei mais com ela.

 

Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….

 

Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto.  Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena…

 

Alguém segura sua mão:

 

– Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar. Ainda mais que os pensamentos não cessavam:

 

Porque será que consigo sentir a energia das pessoas ? Parece que, invisiveis, elas invadem o ar e cada particula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.

 

Ouço vozes, mas estou em silêncio.  Quanto mais quieto, mais me ouço…

 

Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada.

 

Se fecharam, é porque todos estão aqui- pensou- O que será que vão fazer depois ?

 

Que música é essa ? Parece vir do estacionamento…

 

Intrumento de corda, vozes…coral ? Deixe-me ouvir…

 

A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam alí, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo.

 

Quer dizer que nessas horas a gente ouve música…

 

Porque será que não percebo mais o tempo ? Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo : As árvores da rua,  mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta ! Ou será que nunca saíram daqui ?

 

De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto.

 

Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.

 

Ouve alguém soluçando mas isso não o detém:

 

É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.

 

O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem:

 

Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era- …essa música, eu conheço…

 

Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor. Neles, as músicas fluiam e se pareciam muito com a que ouvia agora.:

 

Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.

 

Não precisava abrir os olhos: ele via.

 

As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes.

 

Os pensamentos cessaram.

 

A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável.

 

Já não ouvia vozes.

 

Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante.

 

Uma incrivel sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.

 

As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço.

 

Não vê ninguém mas sente.

 

Agora tudo estava em paz.

 

Tinha voltado para casa.