Entrevista Portal Making OF

Flavio Siqueira lança novo livro – Portal Making Of

“Primeiro uma música suave. Como o sol que se põe sem que a gente perceba ou a Terra que gira pelo espaço sem nos dar tontura, um som rasgou o silêncio. Veio aos poucos, embalando o sonho, fazendo-se perceber sem pressa, dando consistência ao vazio, alterando o ritmo do mundo sem cores e confuso que lentamente ia ficando lá atrás. Quando o ritmo muda, muda tudo. Tons agudos, quase sem melodia. O caminho de volta à consciência anunciando que o sono acabou. Seis e meia. Ainda ao som do despertador, Ed se arrasta para fora da cama, lutando para reorganizar os pensamentos.” “O Éden – A surpreendente jornada de um homem em direção à Deus e a si mesmo” é o novo romance da Editora Cia dos Livros, escrito de uma forma leve e romântica por Flávio Siqueira. Este livro de ficção conta a história do aviador Ed Mingot que vive a crise da recente separação que o distanciou de Gabriel, seu filho de 5 anos. Tudo piora quando recebe a notícia de um grave acidente, colocando o menino na UTI entre a vida e a morte. Vivendo entre a culpa e um profundo vazio, inesperadamente Ed inicia uma comovente jornada pelo jardim chamado ÉDEN onde Anjo, um misterioso anfitrião, o acolherá revelando fatos importantes de sua própria história. (Ficha Técnica: Livro: O Éden; Autor: Flavio Siqueira; Editora: Cia dos Livros; Paginas: 288; Preço Sugerido: R$ 39,90)

Entrevista com o autor

Prezado Flávio, o que o levou a escrever seu primeiro livro de ficção?

Flávio Siqueira: Depois da experiência de lançar meu primeiro livro, o “Dez histórias e algo mais”, senti que precisava de outros recursos para contar a história de Ed Mingot. Adicionei muita coisa pessoal, muitos cenários, viagens humanas, psicológicas e existenciais que, a meu ver, caberiam melhor em uma ficção que me daria liberdade para compor algo com mais densidade e clareza.  Além do mais acredito que o vinculo entre o leitor e a história aumenta a medida que ele consegue contextualiza-la com seu momento de vida, com situações do seu próprio dia a dia, inclusive utilizando-se dos recursos históricos e ambientais que são abundantes no livro.

Nele, Ed Mingot, o personagem principal vive nos dias atuais onde as pressões do cotidiano, muitas vezes, nos distanciam de nossos próximos e, para alguns, de uma busca espiritual. Podemos dizer que esta situação é um mal de nosso tempo e que, apenas em situações extremas paramos para avaliar nossos valores?

Flávio Siqueira: Não acho que seja só do nosso tempo. É claro que a correria e as pressões do dia a dia influenciam para que assumamos essa posição natural de simplesmente nos deixar embalar pelo fluxo da media, aceitando o que a maioria convencionou como sendo bom. Vejo isso como uma condição humana que, em muitos casos, só muda quando algo extremo acontece. Isso está presente em todas as áreas da sociedade, inclusive nas ligadas a religiosidade. A percepção de que é assim nos leva para a encruzilhada onde devemos decidir se continuaremos no fluxo da média ou nos submeteremos a constantes e eternas reavaliações pessoais de valores e prioridades. Ed precisou desse choque para perceber que existiam muito mais sujeiras varridas para baixo do tapete do que gostaria de admitir.

Enquanto você construía a história, o que mais te sensibilizou e o fez repensar sua própria vida?

Flávio Siqueira: Escrever um livro como O Éden é um presente, especialmente porque seria impossível faze-lo sem se entregar a mesma viagem do personagem. Para construir os diálogos e conectar as questões de Ed e as respostas do Anjo com as mesmas questões que porventura habitam o coração e a mente dos leitores, tive que fuçar minha alma e cavar o mais fundo que pude em minhas próprias questões. Lá encontrei ambiguidades, relativizações que precisavam de curas e respostas, assim como Ed. De um jeito ou outro a busca dele foi a minha também, assim como a cura que ele encontrou foi a mesma que me curou.

Em que parte da história você acredita que os leitores ficarão mais emocionados?

Flávio Siqueira: É muito difícil para um autor, especialmente em se tratando de uma obra tão humana, destacar uma parte mais emocionante, ainda mais nesse caso onde inclui alguns elementos de minha própria história. Há muitas, situações, cenários, questões, medos, culpas e desfechos que podem perfeitamente ser aplicados a inúmeros contextos, de modo que acredito que cada leitor se identificará a parte que lhe couber. No entanto, o poder desse livro ficou mais claro a medida que ouvia relatos de leitores que realmente se abalaram com a história e me contavam com muita emoção o quanto determinado trecho lhe tocou. No fim das contas tudo o que quero é que cada leitor se encontre na jornada de Ed e, nela, identifique suas próprias questões e encontre as respostas necessárias.

Qual a mensagem você gostaria de passar aos leitores?

Flávio Siqueira: Olha, uma das coisas que faço questão de deixar claro é que tudo o que nos rodeia, as pessoas, situações, ambientes e históricos, refletem aquilo que somos e não necessariamente o que queremos.  Nos denunciamos o tempo todo em nossas escolhas, especialmente no significado que damos para cada coisa que acontece.  Portanto, toda construção existencial deve acontecer de dentro para fora, partindo da consciência de nossa própria relatividade humana que nos remete a necessidade de vínculos mais consistentes e verdadeiros.  Se cada leitor entender que é desse chão que deve partir suas relações, inclusive com Deus, ficarei plenamente realizado.

Embora seu livro anterior “Dez Histórias”, esteja baseado em fatos reais, a valorização da vida e a exposição do ser humano diante de limites, de tragédias, estão presentes nos dois livros. Qual a ligação literária entre os dois?

Flávio Siqueira: Os dois são reflexos daquilo que sou. Cada um a sua maneira, usando seus próprios recursos, contando suas próprias histórias, porém nascidos a partir do mesmo coração que sempre faz questão de deixar vazar no que faz aquilo que é. O Dez Histórias está ligado a um tempo específico de minha vida. Foi quando decidi sair de São Paulo em busca de novos caminhos profissionais e pessoais. Ainda estava sob o impacto de uma intensa experiência humana como âncora e repórter de uma rádio especializada em trânsito. O Éden reflete outro momento, onde já trilhando por novos caminhos, buscava respostas que conectassem as diferentes fases e me mostrasse o sentido de tantas experiências que estava vivenciando. Apesar desses contextos diferentes, ambos expressam minha intenção em usar a comunicação em beneficio de quem se expõe a ela e que isso seja fator colaborador para que cada leitor encontre suas próprias respostas.

Suas experiências como repórter, servem de base e referência para os livros?

Flávio Siqueira: Todas as minhas experiências servem de referência para tudo o que faço. É assim porque tudo o que faço é um pouco daquilo que sou. Minha experiência como repórter não influencia mais do que a minha como marido, pai, filho, amigo, humano que, apesar das próprias ambiguidades, busca caminhos de cura e, a medida em que encontra, tenta compartilhá-las com que lê.

Seus leitores já podem esperar por novas histórias?

Flávio Siqueira: Claro, podem sim. Sou um daqueles que foram mordidos pela mosquinha da literatura e tenho encontrado nela um canal cada vez mais poderoso para me comunicar. Estou no começo dos trabalhos relacionados ao terceiro livro, também uma ficção e, como os outros, carregados de questões humanas, existenciais e espirituais. Mas ainda é só o começo, tem muita coisa gerando dento de mim. Provavelmente as novidades começarão a aparecer depois do segundo semestre de 2012.

Sinopse

“O Éden – A surpreendente jornada de um homem em direção à Deus e a si mesmo”. Algumas histórias são iluminadas. Sem que notemos se escondem em algum lugar de nossas almas e depois são resgatadas quando mais precisamos, surgindo como uma frase, um pensamento, um exemplo que jorrou como insight revelando que sempre esteve lá.  Esta história é assim. “Se damos a Deus o crédito das bênçãos, por que não o ônus das tragédias? Por que frequentemente tudo parece dizer que Deus simplesmente não se importa? Aliás alguém pode garantir que nossas escolhas nos levarão a algum lugar?” As respostas iluminarão a alma do aviador do aviador Ed Mingot e a sua também. Fé, dúvidas, culpa, morte, amor, esperança e os caminhos que percorremos em busca de sentido mesmo onde parece não haver compõe o cenário do ÉDEN. Um livro tocante que impactará leitores de todas as idades e se instalará em sua alma com uma intensidade transformadora, incluindo você nessa jornada ao encontro de si mesmo e de Deus.

Conheça o autor

Em 2009 foi o ano em que Flavio Siqueira deixou de ser um nome exclusivamente do rádio e entrou definitivamente no mundo dos livros. Antes seus textos e vídeos jáiam sucesso na internet, mas foi no lançamento com seu primeiro livro, “Dez Histórias e Algo Mais” (Ed. Besouro Box) que nasceu o escritor. “O Éden” é sua primeira ficção.

Blog: www.flaviosiqueira.com Twitter: @flaviofsiqueira

Link da entrevista: http://www.revistamakingof.com.br/27,44904-jornalista-fl%C3%A1vio-siqueira-lan%C3%A7a-novo-livro-confira.htm

Leia Boechat.

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Nos meus tempos de Band, trabalhei com Ricardo Boechat.

Ainda que não trabalhássemos diretamente juntos, sempre me chamou atenção seu jeito despretensioso, direto e lúcido de tratar com as notícias e as pessoas.

Lembro que, no dia do rádio, a Band fez com que alguns apresentadores da casa dessem “expediente” em outras rádios do grupo.

Eu fui dar entrevista na Nativa FM, o Boechat veio para a RST.

Sua participação foi brilhante e passei a admirá-lo ainda mais.

Confesso que, parte da minha admiração, nascia do grande contraste do comportamento dele com  parte dos jornalistas ( especialmente os da minha idade para baixo) que muitas vezes se posicionam de maneira arrogante.

Por isso ouço com atenção os comentários do meu ex colega e, quando lí essa antiga entrevista (através do site do meu amigo Caio Fabio), dada por ele em 2000, achei que valeria postar no blog.

Apesar da data, trata-se de uma matéria atualíssima, especialmente para os que, como eu, tentam entender os caminhos da notícia atualmente.

Segue abaixo

“Vitor Sznejder, atualmente responsável pela comunicação institucional do jornal O Globo, tem um espaço pessoal na Internet, com o subtítulo ‘Jornalismo e Judaísmo’, que já está se transformado em um ponto de referência para quem gosta de se informar sobre a profissão. Esta entrevista com Ricardo Boechat, que antecipamos antes mesmo de ser colocada, a partir deste domingo (22/10), no sítio do Vitor, já é a quarta, sempre com uma boa revelação da trajetória de personalidades jornalísticas. Vale a indicação para as outras três: Evandro Carlos de Andrade, Mino Carta e Merval Pereira. (André Motta Lima)

Ricardo Boechat

Ele não lerá esta entrevista, embora a tenha concedido de bom grado e com bom humor, em sua mesa na redação do Globo. Admite que não lê nada e que tem especial aversão à Internet. Ganhador de dois Prêmios Esso, trabalha compulsivamente desde os 17 anos de idade, mas não se considera um workaholic. Suas notas exclusivas pautam os meios de comunicação e ainda assim rejeita o rótulo de formador de opinião. Prefere dizer-se, ‘mal comparando, um atirador (de notícias) de elite.’

Quem são e de onde vieram os Boechat?

São imigrantes suíços que vieram pra cá em meados do século passado, cento e tantas famílias atraídas por agenciadores portugueses com a oferta de terras pela Coroa brasileira. Foi um logro. Muitos morreram enquanto esperavam um demoradíssimo embarque em Portugal. Nesse bolo vieram os primeiros Boechats, desembarcaram aqui no Rio. O objetivo da viagem era ocupar terras no Sul do país, que não existiam. Todos acabaram compelidos a encontrar uma saída aqui mesmo no Estado do Rio e se fixaram na serra, onde fundaram a cidade de Friburgo. O meu velho, Dalton, é da terceira geração desses imigrantes.

O que ele fazia?

Formou-se em Filosofia, morou a vida inteira em Aperibé, na época um pequeno distrito do município de Pádua, no norte do Estado. Hoje é município.

Foi onde você nasceu?

Nasci em Buenos Aires, em 13 de julho de 1952. Meu pai era professor de línguas e filosofia e foi levado pelo Antonio Houaiss pra trabalhar como professor do Instituto Cultural Brasil-Argentina, a soldo do Itamaraty. Lá trabalhou um tempo, depois foi pra Montevidéu com a mesma tarefa, integrando a equipe de professores do Instituto Cultural Brasil-Uruguai. Nesse período conheceu a minha mãe, Mercedes Carrascal, que é argentina de nascimento mas morava em Montevidéu. Casaram-se e lá tiveram quatro dos seus sete filhos. Os três últimos já nasceram no Brasil. Meu pai voltou em 1954 pra trabalhar na Petrobrás, de onde só saiu dez anos depois, demitido por ocasião do golpe militar. Era um homem ligado à militância e à luta política. Na minha casa, política era uma coisa diária: se discutia, se falava, se lia, se debatia, muitos amigos dele freqüentavam a minha casa e alguns eram do Partidão (Partido Comunista Brasileiro).

Então você foi criado nesse ambiente altamente politizado…

No golpe de 1964 eu tinha 12 anos. Até o início da década de 70, quando a ditadura militar ficou mais violenta, minha casa continuou sendo um local de encontro, de discussões, embora meu pai, àquela altura, já estivesse cassado há anos e, vez por outra, voltasse a ser preso.

E você, o que fazia? Estudava?

Eu fui recrutado pelo Partidão com 14 anos. Fazíamos militância na área estudantil, basicamente secundarista, no Centro Educacional de Niterói, que era o meu colégio. Eu decidi abandonar a escola quando tinha 17 anos, não terminei sequer o curso Clássico, que equivale hoje ao período de 5a. a 8a. séries do 2o. grau. Não queria mais ficar numa sala de aula ouvindo, anotando, estudando coisas – eu queria fazer coisas.

Fazer, o quê? Já pensava em Jornalismo?

Nunca tinha pensado claramente em ser jornalista. Tentei emprego numa empresa que vendia material pra escritório, e fui vender livro com a minha mãe. Meu pai chegou a ser um dos maiores vendedores da Barsa, que era a (enciclopédia) Britânica Brasileira.

A propósito, dizem as más línguas que você hoje em dia quase não lê, é verdade?

Hoje apenas folheio jornais e revistas, e não leio livros há muitos anos…

E a Internet? Algum site que lhe interesse?

Pouquíssimos, pouquíssimos, e quando me seduzem logo na chamada. Nem sei mexer, não sei acessar, nem quero aprender, não tenho saco!

Bom, mas voltando ao trabalho e ao Jornalismo…

Eu tinha gosto pelo noticiário político, mas vivíamos um período de censura. Então devorava o noticiário internacional. Era capaz de descrever nomes de aldeias e de oficiais envolvidos na guerra do Vietnã, Camboja, Laos etc. E, por sorte, aprendi datilografia no colégio. Essas eram as minhas duas afinidades primárias com o jornalismo. Meu primeiro emprego com carteira assinada e rotina foi no Diário de Notícias, pra onde fui em 1970. Quem me levou foi Kleber Saboya, que era o diretor comercial do jornal, pai de uma colega de escola.

Mas você foi contratado para fazer o quê?

Eu fui para lá sem função definida, porque eu não sabia rigorosamente porra nenhuma de jornal. O Kleber me deu uma oportunidade, me encaminhou prum chefe de reportagem e disse: ‘ó, vê se esse menino dá pé, bota ele pra fazer algumas coisas aí’ , e eu fiquei ali, meio largado nesse ambiente, movido apenas pela vontade de fazer alguma coisa diferente do que eu vinha fazendo até então.

Como era o jornal?

O Diário de Notícias tinha naquela época um caderno escolar que dividia com um similar do Jornal dos Sports o mercado de anúncios e de notícias na área de cursinhos e vestibular. Esse era um tema que, durante determinado período do ano, era de alto interesse para a faixa de leitores jovens, que tentava ingressar na universidade, e suas famílias. Eu me engajei, digamos, como um pré-foca desse caderno, primeiro anotando coisas, recados, pautas, organizando os releases que chegavam… Os resultados dos vestibulares eram divulgados em listas datilografadas, às vezes com as notas manuscritas, aluno por aluno, prova por prova, e o jornal publicava essas listas. Em algumas ocasiões, não poucas, eu ia pras faculdades copiar isso aí. Dentro da redação, quando essas listas eram divulgadas, milhares de alunos ligavam aflitos pra tentar saber se tinham sido aprovados e eu também ficava atendendo esses telefones… Isso foi em 1970, 1971 e o Nilo Dante, que era o editor-chefe do jornal, me via todo dia ali — eu chegava muito cedo e saía muito tarde. Foi ele quem me levou para trabalhar com Ibrahim Sued.

Então você já era esse workaholic, como é conhecido?

Eu não sou propriamente ‘workaholic’, eu apenas sei que se eu trabalhar menos, não consigo notícias. Não é um problema de gosto.

OK, voltemos ao Nilo.

Um dia ele me chamou e disse: ‘ garoto, você quer fazer um bico?’ Eu quero, Sr. Nilo! Ele disse: ‘ então vai nesse endereço aqui e procura o Ibrahim Sued.’ Eu tomei um susto! Porque o Ibrahim era uma celebridade, porque eu estava com 17 pra 18 anos, com todos aqueles valores e convicções da juventude, e de repente tenho esse dilema: ou faz a tua opção pelo que você imagina ser uma grande coerência ideológica…

Ou vai ganhar dinheiro? (risos)

O Diário pagava 400 cruzeiros por mês e pagava atrasado, na época já era um jornal pré-falimentar. O Ibrahim me ofereceu 600.

E como foi o seu primeiro contato com ele?

Cheguei lá no sábado, dei de cara com aquele mito, aquela figura. Ele me perguntou assim (imitando a voz e o jeito): ‘Você é de esquerda?’ Eu disse: ‘não, seu Ibrahim, só se for da festiva’ (risos), porque naquela época você não brincava com isso! E ele retrucou: ‘Ah, essa é a pior de todas!’ (risos)

E me explicou que aquilo era um estágio, um bico. ‘Você tem uns cadernos de telefone ali naquela gaveta (eram os cadernos que tinham sido deixados pelo João Bosco Serra, a quem eu estava substituindo). Pega ali os telefones e vai ligando. Diz que trabalha pra mim, pede notícia e escreve numa lauda e me dá.’

Vem daí o seu hábito de manter telefones anotados nesses ‘sebosos’?

É! (mostra e folheia, orgulhoso, cadernos em espiral com folhas amareladas pelo tempo.) Passei a trabalhar no Ibrahim e pra você ter idéia de como foi difícil a adaptação, depois de quatro anos lá, eu desci no elevador com ele às 13h30 de um sábado, e ele disse assim: (imitando) ‘Ó, garoto, rasguei o teu bilhete azul ontem! Até ontem tu tava com o bilhete azul na minha gaveta!’ Queria dizer que era a minha demissão, porque ele achava que até o quarto ano eu ainda não tinha aprendido a fazer aquilo, e provavelmente estava certo.

Difícil, hein? (risos)

Tinha que ter estômago …

Seria essa a origem da tua gastrite?

Pode ser, provavelmente… Eu ralei muito lá, ah, penei muito. Não tinha conversa! Eu trabalhei lá 14 anos e sofri 14 anos, até 1983!

Mas provavelmente aprendeu muito, né?

Eu costumo dizer que o Ibrahim era um excelente professor e um péssimo patrão. O Turco era um grande colunista, o maior colunista, mas ele era um personagem do seu próprio noticiário: era a visão dele, o comentário dele, era muito a primeira pessoa… e ele tinha notícia como ninguém, e tinha um faro inigualável. Mas a notícia pro Ibrahim era sempre parte de um universo que ele tratava como algo que partia ou vinha pra ele.

Neste sentido você faz um trabalho completamente diferente…

Eu lido com a notícia como qualquer editor aqui. Nesse sentido, eu tenho mais instrumentos de discussão jornalística do que ele tinha e eu boto isso num grau de exigência que, reconheço, tem feito mal, física e psicologicamente, a mim e a quem trabalhou comigo…

E dava pra viver bem com aquela grana?

Enquanto estive no Ibrahim, sempre tive paralelamente outro trabalho! Como pagava muito mal, e talvez percebendo que fosse bom para ele e para você ter outras experiências, ele ia te indicando para bicos, para assessorias etc.

Por exemplo?

Ele me indicou para o editor-chefe da Rádio Nacional, onde eu trabalhei durante uns dois anos e meio; também por dica dele, fui assessor de imprensa da Embratel e do Copacabana Palace.

Mas então, por que você se irrita tanto com os assessores de imprensa?

Não, ao contrário! Na verdade, tenho bronca é de qualquer um que esteja militando nesta atividade e se esqueça que o seu produto é notícia. Esses tomam o teu tempo, te ligam nas horas de fechamento, nas horas mais absurdas… Mas não tenho nenhum preconceito! Penso que as corporações, as instituições, os governos, têm que ter as suas estruturas para lidar com a mídia, e essas estruturas, não raro, têm acesso privilegiado a determinadas notícias e essas é o que eu quero, através dessas é que eu quero me relacionar com elas. O resto, doutor, não me interessa — e eu digo isso para eles! Então, pode parecer que há uma certa resistência à função, mas não é. E é muito comum você ver jornalistas se esquecerem que são jornalistas e pensarem que se formaram em assessores, o que não existe.

Pois eu tinha a impressão de que você só atende a algumas pessoas…

Não, eu atendo todo mundo! Aqui (na equipe) todo mundo atende tudo, nós não temos secretária!

Você atenderia ao assessor da Carla Perez? (risos)

O que eu não quero é atender o assessor da Carla Perez pra qualquer coisa que não seja notícia… Mas, atenção! Também não quero perder tempo com o assessor do presidente da República pra qualquer coisa que não seja notícia!

Essa regra vale pra todo mundo, inclusive para amigos como o Moreira Franco, de quem você foi assessor de imprensa?

Todo mundo! E o Moreira é um belo exemplo, porque é uma fonte horrorosa, nunca teve sensibilidade pra saber o que é notícia, mas ele reconhece isso… (risos)

Como foi essa assessoria? Ele era de Niterói, não?

Moreira Franco saiu candidato a deputado federal pelo MDB do Estado do Rio em 1974; era genro do almirante Amaral Peixoto, um político com quem o Partidão tinha relações muito boas. O almirante era um contribuinte contumaz, nas campanhas de arrecadação para as finanças do partido. A política do Partido Comunista Brasileiro era ter candidatos próprios, quadros que ainda estivessem na legalidade, o que era difícil… E como eram poucos, o partido apoiou, aqui e acolá, outros candidatos, numa política de ampliação de alianças.

Trabalhei pela eleição do Moreira em função dessa circunstância. Tive poucos contatos com ele, e muito superficiais, em panfletagens e comícios. Mas em 1976, quando ele se elegeu prefeito de Niterói, novamente foi apoiado pelo Partido, que teve a prerrogativa de fazer algumas indicações. Eu fui levado para a assessoria de imprensa do Moreira como uma tarefa do partido — e continuei trabalhando com o Ibrahim!

Mas com era possível conciliar essas coisas?

Eu ia pra prefeitura de manhã cedo, muito cedo, dava os primeiros encaminhamentos e vinha pro Rio fazer a coluna do Ibrahim . Era muito mais fácil fechar a coluna do Ibrahim do que fechar uma coluna como a minha, hoje.

Por quê?

Não havia essa enorme quantidade de colunas especializadas disputando notícias, e, paradoxalmente, a censura era um fator de vantagem porque a coluna transitava por bastidores, permitia-se abordagens mais informais, declarações em off etc.. Além disso, a figura do Ibrahim era vista como aliada do sistema, então você abria algumas portas quando ligava… O ministro Armando Falcão, que não tinha nada a declarar pra ninguém, era uma belíssima fonte, em off, claro, mas dava notas importantes, antecipava coisas.

Voltando à prefeitura…

Fiquei na prefeitura até o Moreira ir pro PDS, naquele racha do MDB do estado… não me lembro o ano, sei que houve um processo de rompimento no MDB, quando houve a fusão (dos estados do Rio e da Guanabara).

Mas vocês permaneceram amigos?

Ainda que eu tivesse ido pelas razões que já descrevi, a gente criou uma relação de amizade e passei a ser um amigo pessoal dele. E ainda sou, embora as nossas rotinas se tenham distanciado já há muitos anos. Mas ainda nos falamos com freqüência..

Você tem consciência de que a suas notas pautam o Brasil?

Essa é uma característica das colunas no Brasil. Pode-se admitir que a minha faça isso com mais freqüência. Tenho uma equipe talvez mais equilibrada, num jornal grande, a televisão dá mais visibilidade, enfim…

Qual é a missão do jornalismo?

Informar, difundir fatos.

E que tal ‘formar’ cidadãos ?

Quem forma é a família, a escola, é o núcleo de vida do cotidiano do cidadão, é a sua comunidade, a sua cultura, sua religião, isso forma..

Sua opinião sobre o jornalismo praticado hoje, de maneira geral, não parece ser das mais elogiosas…

O jornalismo brasileiro é repetitivo, oficialista, depende assombrosamente do mundo institucional. Alimenta-se daquele Triângulo das Bermudas formado pela Câmara, Senado e Planalto numa intensidade que talvez não interesse ao Brasil verdadeiro, à sociedade, ao cidadão comum. E todos os jornais fazem igual, o que talvez explique aquele fenômeno sobre o qual já falamos, de as colunas brasileiras serem tão mais lidas, e pautarem tão mais do que no resto do mundo.

Percebo que você é generoso com os que o cercam…

Minha maneira de lidar com o mundo nada tem a ver com o fato de exercer o jornalismo. Sou o que sou porque fui educado assim. Se posso ajudar alguém, ajudo. Mas, atenção, não sou uma patronesse da ABBR ou a Irmã Dulce. Estou muito aquém do que um homem com as minhas condições pode fazer! Talvez eu esteja muito além da média do que a sociedade brasileira… Como as sociedades do mundo contemporâneo transformaram-se em predadoras de si mesmas e dos seus semelhantes numa intensidade que o mundo jamais viu, eu talvez não esteja acompanhando esse processo de desumanização na mesma violência e rapidez.

Mudando de assunto: você é o apresentador do vídeo institucional da Infoglobo. A que se deve a sua escolha? Por você representar a imagem do jornal? Por integrar, por assim dizer, a sua cúpula?

Atendi a um pedido da Ana Luisa Marinho (gerente de marketing institucional da Infoglobo), por quem eu tenho um grande carinho; e não posso negar que é motivo de orgulho saber que uma pesquisa identificou a imagem da minha coluna com a do Globo. Quanto a integrar a cúpula do jornal, de jeito algum — sou como todos aqui dentro. No máximo, eu sou alguém que eles ouvem. Além disso, seria uma apatia muito grande, minha, uma negação da minha própria personalidade, não ir lá encher o saco deles. O que eu faço, isto sim, é permanentemente encher o saco deles! Eu provoco, eu me considero um provocador.

Como no caso do Dossiê Cayman, por exemplo?

Eu fui o primeiro a ter a informação de que existia o dossiê. Até hoje acredito que existe um dossiê sério, verdadeiro, como acredito piamente no fato de que o ministro Sérgio Motta e seus companheiros de São Paulo deram um destino qualquer à monumental sobra de dinheiro da campanha da primeira eleição do Fernando Henrique Cardoso. E não creio que esse destino tenha sido a ABBR, ou a APAE ou o Instituto do Coração. Confio no caráter, na probidade, na seriedade de propósito, na sinceridade religiosa do pastor Caio Fábio! Tenho absoluta convicção de que ele estava falando de alguma coisa muito mais séria do que a contra-informação do governo conseguiu fazer crer, com a ajuda da mídia.

Mas ao apostar nessas coisas você corre um grande risco, não é, tem uma enorme margem de erro?

Mal comparando, é como se eu fosse um atirador de elite, tá? O atirador de elite não é o chefe de polícia, ele não é o teórico da segurança pública, não é o ator principal do filme, ele não é merda nenhuma; ele é um figurante, mas tem uma função específica e vital que é a de disparar uma única bala e resolver o problema. Você tem que aceitar como parte desta atividade uma margem de erro, porque se não tivesse margem de erro, o atirador seria o herói do filme. Eu estou aqui dando tiro o dia inteiro. Cabe ao público concluir que minha média de acertos justifica que ele volte a ler a minha coluna no dia seguinte. Eu estou no Globo há 17 anos e na batalha há 30. Todo dia este contrato é renovado por pessoas que eu não conheço. Então, eu acho que a margem de acerto tem sido satisfatória. Quanto aos erros, tenho que agir com honestidade, corrigi-los, desculpar-me e pagar um preço por isso se o atingido resolver ir à Justiça também.

Pai amantíssimo de cinco filhos, por que, em sua opinião, é mais difícil manter um casamento do que cuidar de filhos?

Casamento é mais difícil, é a relação entre dois iguais, entre dois adultos que já delinearam a sua personalidade, seu universo, seus interesses, idiossincrasias, neuras, desilusões etc… O filho, além de não estar ainda maculado por tudo isso, ainda é mais permeável à tua influência e autoridade. Além do que, a relação com os filhos está revestida de um fatalismo maior: não há ex-filho, você tá ali na compulsoriedade! (risos)

Você sabe do poder de sedução que exerce sobre as mulheres da redação, não sabe? (sorriso)

Eu? Nem eu sabia disso! (sério) Nunca fui conquistador nem mulherengo. Casei muito cedo, fui monogâmico. Mais monogâmico do que fiel. (risos)

Explica a diferença, por favor?

Monogamia é um fato estatístico, a fidelidade é um fato afetivo, moral, ético. Além do mais, sempre achei muito trabalhoso pular a cerca. O infiel tem que ter boa memória, tem que guardar uma quantidade monumental de álibis e versões… (ar de cansaço) … Eu vou te dizer, você vê a hora que se chega aqui, a hora que se sai, a rotina que se leva… chega num fim de semana ou numa hora que você possa sair mais cedo, eu quero ir pra casa, eu quero ficar quieto, não quero pensar, quero tomar um banho, quero ver um filme, entendeu?

Que tipo de filme?

Qualquer um. Eu vejo qualquer porcaria…”

Entrevista com Julinho Mazzei

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Já faz alguns anos que ele saiu do rádio.

Mas isso não muda o fato de que, para grande parte dos ouvintes e profissionais, Julinho Mazzei continua sendo referência.

Pelo seu pioneirismo, ousadia e capacidade de criar na cabeça de quem ouve,verdadeiros mundos, onde ele era o comandante.

A bordo do Radio Flight, milhares de pessoas viajaram pelo planeta e aprenderam muito sobre música, tradições, cultura…

Hoje ele mora nos Estados Unidos e é produtor independente de televisão.

Em um longo e aberto papo, Julinho fala sobre as inevitáveis mudanças do rádio diante da tecnologia.  Expõe suas inspirações, expectativas e desabafa contanto que decepções e falsas promessas lhe afastaram do rádio.

Dá conselhos para quem chega ou está há muito tempo na “latinha”, comenta sobre a falta de investimentos no meio e revela que, hoje em dia, só liga o rádio para ouvir sobre trânsito ou alguma notícia de última hora.

Apesar disso, deixa claro que sua clara percepção sobre o veículo que o projetou nacionalmente continua sendo uma de suas características.

Nos próximos minutos, a palavra está com Julinho Mazzei.

 

  

Julinho, você começou no rádio em uma época onde a inspiração vinha do AM.Helio Ribeiro foi um dos que te inspirou. No entanto, a inspiração não pavimentava o chão , ela só abria o caminho. Como foi construindo sua identidade?

 

O estilo que criei no rádio foi o resultado de uma combinação de várias coisas.

Sim! Escutei muitas AM’s na época quando cheguei aqui. Eram rádios super legais e dinâmicas e os locutores pareciam estar com “fogo no rabo” – rápidos e sempre cheios de energia.Nessa mesmo época, os locutores no Brasil ainda eram daqueles que queriam ter a voz forte e tentando ser “elegantes”no ar.Por outro lado, aqui nos States os locutores já eram malucos e muito originais.

 

Por falar em malucos (no bom sentido da palavra), uma das minhas maiores inspirações veio muito antes mesmo de vir morar aqui nos States. Foi no Brasil escutando o Big Boy (que Deus o tenha) na Mundial do Rio de Janeiro!! Um fenomeno que infelizmente nunca mais teremos o grande prazer de ouvir.

 

Os States foi um lugar que me ajudou muito a criar uma identidade no ar. A maneira de viver, o comportamento, a tecnologia e cultura avançada, a facilidade de realizar e aprender coisas novas, tudo isso me ajudou a criar um estilo.

 

O Hélio foi o meu primeiro professor.Foi ele que me abriu os olhos para a realidade do rádio. Ele me mostrou o lado mais poético e humano da coisa.

 

Enfim, o AM me inspirou e abriu portas, o FM me mostrou o caminho e foram

pessoas como o Big Boy e Hélio Ribeiro que me mostraram como fazer e mostram o lado mais legal e sincero.

 

Se no começo a inspiração vinha do AM, de onde ela vem para os novos profissionais do FM?

 

Todos se inspiram em alguém ou em alguma coisa. Hoje em dia, acho que  a maior parte da inspiração vem da própria tecnologia. Até “ontem” todos sonhavam em poder montar uma rádio própria, de ter a liberdade de falar e tocar o que bem quiser, e hoje isso é uma realidade! Qualquer um pode ter uma e com ela criar o seu estilo e mandar o seu recado.

 

Mas ainda acho que todos nós, independente da profissão, continuamos a ter alguém como referência.. Aqueles que gostam do mundo corporativo, se inspiram nos mestres dos negócios como o Steve Jobs, Richard Branson, Bill Gates, sei lá!! Assim como os novos atores e atrizes aprendem assistindo aos filmes das grandes estrelas de Hollywood  e assim crescem, procurando e desenvolvendo a sua identidade em alguma coisa de alguém:

um gesto, um sorriso, um olhar, uma simples lágrima,uma entonação ou

algo diferente que ouviu.

 

 

“Hoje em dia, eu não ouço rádio pela música e sim apenas para saber com anda o transito no meu caminho diàrio ou alguma outra notícia de última hora.Fora isso, nem ligo!!”

 

 

 

Essa mudança de referências tem responsabilidade no enfraquecimento do rádio ou é o enfraquecimento do rádio que faz com que as referências mudem?

 

Não,não acho que o rádio enfraqueceu.O que acontece hoje, é que os tempos mudaram e a competição aumentou. Com a evolução a internet ,um novo mundo se abriu à todos aqueles que nunca tiveram a chance de sair de suas cidades ou país. Até pouco tempo atrás só aqules que podiam viajar é que tinham acesso a outras culturas. Hoje, escutar uma rádio americana, canadense, holandesa, alemã, japonesa, ouvir (e ver ao vivo) shows e acontecimentos internacionais é uma coisa comum. Com essa abertura que a internet nos trouxe as referencias também ampliaram e muito!!

 

 

Se na sua época no rádio o acesso a música era diferencial, hoje qualquer um tem acesso a qualquer música.Qual a importancia da música para o rádio de hoje ?

 

 

Acho que a música continua sendo um elemento muito importante no rádio de hoje. No entando acho que algumas pessoas ainda ouvem o rádio terrestre – esse que a gente bem conhece e que todos nós crescemos ouvindo – porque ainda não tem outra alternativa. Talvez por não terem meios de ouvir ou comprar um ipod ou um mp3 player. Hoje em dia, eu não ouço rádio pela música e sim apenas para saber com anda o transito no meu caminho diàrio ou alguma outra notícia de última hora.Fora isso, nem ligo!! A tecnologia mudou tudo!!

 

 

E até onde essas mudanças que abrem possibilidades novas para os ouvintes, proporcionam a migração de anunciantes para outras mídias ?

 

Como já falei,a tecnologia mudou tudo. Nos olhos das grandes companhias e

patrocinadores, sem dúvida o rádio se tornou um veículo muito fraco para investir. Hoje, temos mil outras maneiras de promover, vender, anunciar(gritar, berrar, chorar..rs) nossos produtos.Alternativas muito mais eficazes e diretas e atingindo muito mais publico. A televisão continua sendo a grande “vitrine”de vendas, mas para aqueles que, por razões finaceiras, não podem pagar para anunciar na tv e  que sempre tiveram no rádio o seu veiculo de promoção, partem agora para outras alternativas baratas e mais fortes como a internet, cable, outdoors, celular, etc.  Mas acho que sempre existirão aqueles que ainda acreditam no veículo rádio como uma forma de promoção.

 

Quando me refiro ao enfraquecimento do rádio, incluo que esse fenômeno tem atingido as mídias tradicionais como um todo. Até as novelas da Globo tem tido consideráveis quedas de audiência. É um indicativo de que as coisas estão mudando rápido demais ?

 

Não resta a menor dúvida! Volto a bater na mesma tecla tecnológica. Aqueles que só tinham a oportunidade de ver a Globo, hoje tem milhares de outras opções de conteúdo. Qualquer um hoje pode assitir ou gravar programas em outras mídias. Sim! O mercado mudou e o mundo hoje é outro. Quem não se adpatar a nova realidade de mercado e continuar vivendo de estratégias passadas não sobreviverá. É hora para se realizar uma grande reestruturação interna nas rádios e nos outros veículos mais tradicionais de informação, criando novas alternativas e prioridades.

 

 

Diante da velocidade das mudanças que tipo de profissionais se destacarão no mercado ?

 

Aqueles espertos com uma grande visão criativa e coragem.Serão aqueles que sabem que não sabem nada e por isso estão sempre buscando aprender novas estratégias e conhecimento.

 

 

 

“Tem que saber que o microfone não é apenas um aparelho que amplia a sua voz e sim um instrumento poderoso que pode ser usado para transformar, conscientizar, ajudar, criar situações, refletir e até mudar a história do mundo”

 

 

 

Você acredita que estamos nos aproximando do fim do rádio como hoje conhecemos?

 

Sim! O rádio que nós conhecemos irá mudar, mas não morrerá.Acho que no futuro ele irá continuar informando e prestando serviços a comunidade,mas não com a mesma força de antes.

 

Se no dia em que todos tiverem acesso a web teremos a “democratização” da comunicação a medida em que cada um poderá ter sua própria mídia, o que será das grandes redes ou conglomerados ?

 

Esse dia praticamente já chegou, existem até índios na Amozônia ascessando a net para saber a previsão do tempo para amanhã..rs. O que será dessas grandes redes? Elas continuarão e existir mas como já mencionei quem não se adptar, vai dançar.

 

Sente que as grandes redes tem se adequado com eficiência a essas transformações ?

 

Elas terão e jà estão tentando se adptar. Aqui nos States elas investim muito em novas idéias,ou pelo menos estavam. Acontece que agora com essa nova e triste realidade econômica global muita coisa vai mudar. Neste momento nem eles sabem o que vem pela frente. Ninguém sabe.

 

O Marcelo Braga citou em uma entrevista que estamos vivendo a era dos “filtros pessoais”, sendo que, cada vez menos, as pessoas aceitam que o veiculo lhe imponha determinado conteúdo. Como encara essa nova era ?

 

É claro que ninguém aceita ser dominado ou controlado por alguém ou por alguma mídia qualquer.

 

Assim como muita gente, eu nunca aceitei nenhum tipo de imposicão.Eu só escuto o que quero e quando eu quero e ponto final. Hoje as opções de informação são tantas que é não faz sentido um veículo impor alguma coisa.

 

Se eu não gosto mudo do canal, mudo, se não gosto da rádio que estou ouvindo, mudo ou desligo tudo e vou curtir um som ou assitir algo no meu iPhone ou no iPod, preciso de mais alguma coisa? Não! Fico muito feliz que as pessoas estejam usando os seus “filtros”. Até que enfim. Viva o filtro e a democracia!! Amém.

 

 

“Se existir uma boa oportunidade posso até voltar”

 

 

A geração que nasceu entre o fim dos anos 80 e começo dos 90, já cresceu acostumada com a possibilidade de acesso a qualquer tipo de conteúdo e com a facilidade de, na web, encontrar recursos de áudio, video e texto na mesma fonte. O que, na sua opinião, as mídias tradicionais devem fazer para não perder esse público de vez ?

 

Flavio, sinto lhe informar,mas já estão perdendo e não tem mais volta. Deixa eu te perguntar um coisa: Você encontra na Globo o mesmo conteúdo e da  variedade de informação que a internet lhe oferece? Você ouve na Jovem Pan o mesmo conteúdo que exite na web?Bem, aí é que está. Acho que não preciso responder mais sobre isso.

 

 

“Conheço muita gente que abondonou suas carreiras no rádio por causa de decepções e falsas promessas,eu foi um deles”

 

 

O que passa as ser caracteristica mais importantes nos novos profissionais?

 

O tempo muda, mas as caracteristas terão que ser sempre as mesmas: Um profissional de rádio é aquele que primeiro, ama o que faz. Precisa ser inteligênte, dinamico e alegre. Precisa estar sempre bem informado com os assuntos e problemas da sua cidade,estado, país e do mundo. Tem que saber que o microfone não é apenas um aparelho que amplia a sua voz e sim um instrumento poderoso que pode ser usado para transformar, conscientizar, ajudar, criar situações, refletir e até mudar a história do mundo.

 

O bom profissional, é aquele, que escuta mais e fala menos,mas quando fala,

fala bonito e faz a gente se emocionar. É uma pessoa humilde e sabe que ainda tem muito que aprender . Mas de todas as caracteristicas, acho que a mais importante de todas é o respeito que ele ou ela tem que ter pelo seu público. Muitos esquecem que sem ele nada existe!!

 

Será que toda essa abertura facilita a volta ao mercado, ainda que através de mídia própria, de grandes profissionais como você ?

 

Sei lá! Não sei o que passa pela cabeça dos outros profissionais. Conheço muita gente que abondonou suas carreiras no rádio por causa de decepções e falsas promessas,eu foi um deles.Mas esta é uma outra história que deixo para contar depois.

 

Muitos profissionais que trabalharam comigo também seguiram o mesmo caminho e estão trabalhando em outras setores, criaram seus próprios estúdios, produtoras e estão muito felizes com isso. Outros criaram suas “web radios”ou mudaram totalmente de vida.

 

No meu caso, ainda não sei o que vai rolar. Estou feliz trabalando como produtor de televisão e outras coisas e quase não tenho tempo para me dedicar ao rádio. Mas nunca se sabe, né? Com a nova tecnologia qualquer dia desses a minha “radinha”entra no ar. Existe o momento certo para tudo.

 

Voltaria ao rádio brasileiro ?

 

Sim!! Se existir uma boa oportunidade posso até voltar, mas dessa vez será no meus termos.

 

 

“aproveite que você tem o poder do microfone e use-o para melhorar as vidas das pessoas e da sua cidade. O mundo está precisando muito de gente positiva, alegre e feliz. Seja um deles!!”

 

 

O que tem feito?

 

Nos últimos anos tenho trabalhado como produtor independente de televisão

para vários canais americanos e brasileiros. No Brasil, entre meus clientes estão: o Discovery Channel, National Geographic, HBO, MTV e VH1.

Além de produtor de televisão, montei uma produtora onde crio conteúdo  para a web e edição de video. Além disso, uso a minha voz para a gravação de vinhetas, comerciais de tv e rádio, chamadas, promos e campanhas promocionais para um montão de clientes.

 

Se pudesse resumir um conselho de como os novos (e velhos) profissionais devem agir diante da grande revolução nos meios de comunicação que estamos experimentando, o que diria?

 

Independentemente dessa revolução toda que está rolando ou que veículo você esteja,os princípios básicos são sempre os mesmos: a humildade, o conhecimento de causa, a sinceridade, o respeito pelo público. No ar ou fora dele não importa, tente ajudar as pessoas, dar uma força, grite sempre pelo seus direitos e dos outros, inspire as pessoas trazendo sempre informações legais e com um sorriso no rosto (mesmo estando fudido de grana e de ter perdido a namorada..rs) aproveite que você tem o poder do microfone e use-o para melhorar as vidas das pessoas e da sua cidade. O mundo está precisando muito de gente positiva, alegre e feliz. Seja um deles!!

 

 

Como vê o rádio daqui a 10 anos ?

 

Pergunta dificil.

 

Em termos tecnológicos,vejo rádio como um sinal transmitido de um central enorme e dividida em vários outros canais onde cada ouvinte pode escolher o tema ou estilo que quiser. Assim como é hoje  a SIRIUS ou a XM Radio. Pra você ter uma idéia, hoje no eu tenho no meu carro e na bicicleta acesso a 365 rádios digitais (sem comerciais) que vão desde programas de música, esportes, política até receitas culinárias. Acho que será algo parecido mas de uma maneira ainda mais interativa onde o ouvinte pode até criar a sua!

 

Só Deus sabe.

 

Um pouco de Patch Adams.

Fala-se muito sobre “pensamento positivo”, “pensamento crítico” : “Para mim, pensar é sempre positivo. Não pensar é negativo”. Essa frade é do Dr Patch Adams, que ficou mundialmente famoso ao ter parte da sua história retratada no filme “Patch Adams, o amor é contagioso”.

No ano passado ele deu uma maravilhosa entrevista para o programa Roda Vida na TV Cultura.

Já que não tem nada de bom na TV, alimente a alma com o que é bom.

Assista na sequência a um trecho da conversa: