Leia Boechat.

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Nos meus tempos de Band, trabalhei com Ricardo Boechat.

Ainda que não trabalhássemos diretamente juntos, sempre me chamou atenção seu jeito despretensioso, direto e lúcido de tratar com as notícias e as pessoas.

Lembro que, no dia do rádio, a Band fez com que alguns apresentadores da casa dessem “expediente” em outras rádios do grupo.

Eu fui dar entrevista na Nativa FM, o Boechat veio para a RST.

Sua participação foi brilhante e passei a admirá-lo ainda mais.

Confesso que, parte da minha admiração, nascia do grande contraste do comportamento dele com  parte dos jornalistas ( especialmente os da minha idade para baixo) que muitas vezes se posicionam de maneira arrogante.

Por isso ouço com atenção os comentários do meu ex colega e, quando lí essa antiga entrevista (através do site do meu amigo Caio Fabio), dada por ele em 2000, achei que valeria postar no blog.

Apesar da data, trata-se de uma matéria atualíssima, especialmente para os que, como eu, tentam entender os caminhos da notícia atualmente.

Segue abaixo

“Vitor Sznejder, atualmente responsável pela comunicação institucional do jornal O Globo, tem um espaço pessoal na Internet, com o subtítulo ‘Jornalismo e Judaísmo’, que já está se transformado em um ponto de referência para quem gosta de se informar sobre a profissão. Esta entrevista com Ricardo Boechat, que antecipamos antes mesmo de ser colocada, a partir deste domingo (22/10), no sítio do Vitor, já é a quarta, sempre com uma boa revelação da trajetória de personalidades jornalísticas. Vale a indicação para as outras três: Evandro Carlos de Andrade, Mino Carta e Merval Pereira. (André Motta Lima)

Ricardo Boechat

Ele não lerá esta entrevista, embora a tenha concedido de bom grado e com bom humor, em sua mesa na redação do Globo. Admite que não lê nada e que tem especial aversão à Internet. Ganhador de dois Prêmios Esso, trabalha compulsivamente desde os 17 anos de idade, mas não se considera um workaholic. Suas notas exclusivas pautam os meios de comunicação e ainda assim rejeita o rótulo de formador de opinião. Prefere dizer-se, ‘mal comparando, um atirador (de notícias) de elite.’

Quem são e de onde vieram os Boechat?

São imigrantes suíços que vieram pra cá em meados do século passado, cento e tantas famílias atraídas por agenciadores portugueses com a oferta de terras pela Coroa brasileira. Foi um logro. Muitos morreram enquanto esperavam um demoradíssimo embarque em Portugal. Nesse bolo vieram os primeiros Boechats, desembarcaram aqui no Rio. O objetivo da viagem era ocupar terras no Sul do país, que não existiam. Todos acabaram compelidos a encontrar uma saída aqui mesmo no Estado do Rio e se fixaram na serra, onde fundaram a cidade de Friburgo. O meu velho, Dalton, é da terceira geração desses imigrantes.

O que ele fazia?

Formou-se em Filosofia, morou a vida inteira em Aperibé, na época um pequeno distrito do município de Pádua, no norte do Estado. Hoje é município.

Foi onde você nasceu?

Nasci em Buenos Aires, em 13 de julho de 1952. Meu pai era professor de línguas e filosofia e foi levado pelo Antonio Houaiss pra trabalhar como professor do Instituto Cultural Brasil-Argentina, a soldo do Itamaraty. Lá trabalhou um tempo, depois foi pra Montevidéu com a mesma tarefa, integrando a equipe de professores do Instituto Cultural Brasil-Uruguai. Nesse período conheceu a minha mãe, Mercedes Carrascal, que é argentina de nascimento mas morava em Montevidéu. Casaram-se e lá tiveram quatro dos seus sete filhos. Os três últimos já nasceram no Brasil. Meu pai voltou em 1954 pra trabalhar na Petrobrás, de onde só saiu dez anos depois, demitido por ocasião do golpe militar. Era um homem ligado à militância e à luta política. Na minha casa, política era uma coisa diária: se discutia, se falava, se lia, se debatia, muitos amigos dele freqüentavam a minha casa e alguns eram do Partidão (Partido Comunista Brasileiro).

Então você foi criado nesse ambiente altamente politizado…

No golpe de 1964 eu tinha 12 anos. Até o início da década de 70, quando a ditadura militar ficou mais violenta, minha casa continuou sendo um local de encontro, de discussões, embora meu pai, àquela altura, já estivesse cassado há anos e, vez por outra, voltasse a ser preso.

E você, o que fazia? Estudava?

Eu fui recrutado pelo Partidão com 14 anos. Fazíamos militância na área estudantil, basicamente secundarista, no Centro Educacional de Niterói, que era o meu colégio. Eu decidi abandonar a escola quando tinha 17 anos, não terminei sequer o curso Clássico, que equivale hoje ao período de 5a. a 8a. séries do 2o. grau. Não queria mais ficar numa sala de aula ouvindo, anotando, estudando coisas – eu queria fazer coisas.

Fazer, o quê? Já pensava em Jornalismo?

Nunca tinha pensado claramente em ser jornalista. Tentei emprego numa empresa que vendia material pra escritório, e fui vender livro com a minha mãe. Meu pai chegou a ser um dos maiores vendedores da Barsa, que era a (enciclopédia) Britânica Brasileira.

A propósito, dizem as más línguas que você hoje em dia quase não lê, é verdade?

Hoje apenas folheio jornais e revistas, e não leio livros há muitos anos…

E a Internet? Algum site que lhe interesse?

Pouquíssimos, pouquíssimos, e quando me seduzem logo na chamada. Nem sei mexer, não sei acessar, nem quero aprender, não tenho saco!

Bom, mas voltando ao trabalho e ao Jornalismo…

Eu tinha gosto pelo noticiário político, mas vivíamos um período de censura. Então devorava o noticiário internacional. Era capaz de descrever nomes de aldeias e de oficiais envolvidos na guerra do Vietnã, Camboja, Laos etc. E, por sorte, aprendi datilografia no colégio. Essas eram as minhas duas afinidades primárias com o jornalismo. Meu primeiro emprego com carteira assinada e rotina foi no Diário de Notícias, pra onde fui em 1970. Quem me levou foi Kleber Saboya, que era o diretor comercial do jornal, pai de uma colega de escola.

Mas você foi contratado para fazer o quê?

Eu fui para lá sem função definida, porque eu não sabia rigorosamente porra nenhuma de jornal. O Kleber me deu uma oportunidade, me encaminhou prum chefe de reportagem e disse: ‘ó, vê se esse menino dá pé, bota ele pra fazer algumas coisas aí’ , e eu fiquei ali, meio largado nesse ambiente, movido apenas pela vontade de fazer alguma coisa diferente do que eu vinha fazendo até então.

Como era o jornal?

O Diário de Notícias tinha naquela época um caderno escolar que dividia com um similar do Jornal dos Sports o mercado de anúncios e de notícias na área de cursinhos e vestibular. Esse era um tema que, durante determinado período do ano, era de alto interesse para a faixa de leitores jovens, que tentava ingressar na universidade, e suas famílias. Eu me engajei, digamos, como um pré-foca desse caderno, primeiro anotando coisas, recados, pautas, organizando os releases que chegavam… Os resultados dos vestibulares eram divulgados em listas datilografadas, às vezes com as notas manuscritas, aluno por aluno, prova por prova, e o jornal publicava essas listas. Em algumas ocasiões, não poucas, eu ia pras faculdades copiar isso aí. Dentro da redação, quando essas listas eram divulgadas, milhares de alunos ligavam aflitos pra tentar saber se tinham sido aprovados e eu também ficava atendendo esses telefones… Isso foi em 1970, 1971 e o Nilo Dante, que era o editor-chefe do jornal, me via todo dia ali — eu chegava muito cedo e saía muito tarde. Foi ele quem me levou para trabalhar com Ibrahim Sued.

Então você já era esse workaholic, como é conhecido?

Eu não sou propriamente ‘workaholic’, eu apenas sei que se eu trabalhar menos, não consigo notícias. Não é um problema de gosto.

OK, voltemos ao Nilo.

Um dia ele me chamou e disse: ‘ garoto, você quer fazer um bico?’ Eu quero, Sr. Nilo! Ele disse: ‘ então vai nesse endereço aqui e procura o Ibrahim Sued.’ Eu tomei um susto! Porque o Ibrahim era uma celebridade, porque eu estava com 17 pra 18 anos, com todos aqueles valores e convicções da juventude, e de repente tenho esse dilema: ou faz a tua opção pelo que você imagina ser uma grande coerência ideológica…

Ou vai ganhar dinheiro? (risos)

O Diário pagava 400 cruzeiros por mês e pagava atrasado, na época já era um jornal pré-falimentar. O Ibrahim me ofereceu 600.

E como foi o seu primeiro contato com ele?

Cheguei lá no sábado, dei de cara com aquele mito, aquela figura. Ele me perguntou assim (imitando a voz e o jeito): ‘Você é de esquerda?’ Eu disse: ‘não, seu Ibrahim, só se for da festiva’ (risos), porque naquela época você não brincava com isso! E ele retrucou: ‘Ah, essa é a pior de todas!’ (risos)

E me explicou que aquilo era um estágio, um bico. ‘Você tem uns cadernos de telefone ali naquela gaveta (eram os cadernos que tinham sido deixados pelo João Bosco Serra, a quem eu estava substituindo). Pega ali os telefones e vai ligando. Diz que trabalha pra mim, pede notícia e escreve numa lauda e me dá.’

Vem daí o seu hábito de manter telefones anotados nesses ‘sebosos’?

É! (mostra e folheia, orgulhoso, cadernos em espiral com folhas amareladas pelo tempo.) Passei a trabalhar no Ibrahim e pra você ter idéia de como foi difícil a adaptação, depois de quatro anos lá, eu desci no elevador com ele às 13h30 de um sábado, e ele disse assim: (imitando) ‘Ó, garoto, rasguei o teu bilhete azul ontem! Até ontem tu tava com o bilhete azul na minha gaveta!’ Queria dizer que era a minha demissão, porque ele achava que até o quarto ano eu ainda não tinha aprendido a fazer aquilo, e provavelmente estava certo.

Difícil, hein? (risos)

Tinha que ter estômago …

Seria essa a origem da tua gastrite?

Pode ser, provavelmente… Eu ralei muito lá, ah, penei muito. Não tinha conversa! Eu trabalhei lá 14 anos e sofri 14 anos, até 1983!

Mas provavelmente aprendeu muito, né?

Eu costumo dizer que o Ibrahim era um excelente professor e um péssimo patrão. O Turco era um grande colunista, o maior colunista, mas ele era um personagem do seu próprio noticiário: era a visão dele, o comentário dele, era muito a primeira pessoa… e ele tinha notícia como ninguém, e tinha um faro inigualável. Mas a notícia pro Ibrahim era sempre parte de um universo que ele tratava como algo que partia ou vinha pra ele.

Neste sentido você faz um trabalho completamente diferente…

Eu lido com a notícia como qualquer editor aqui. Nesse sentido, eu tenho mais instrumentos de discussão jornalística do que ele tinha e eu boto isso num grau de exigência que, reconheço, tem feito mal, física e psicologicamente, a mim e a quem trabalhou comigo…

E dava pra viver bem com aquela grana?

Enquanto estive no Ibrahim, sempre tive paralelamente outro trabalho! Como pagava muito mal, e talvez percebendo que fosse bom para ele e para você ter outras experiências, ele ia te indicando para bicos, para assessorias etc.

Por exemplo?

Ele me indicou para o editor-chefe da Rádio Nacional, onde eu trabalhei durante uns dois anos e meio; também por dica dele, fui assessor de imprensa da Embratel e do Copacabana Palace.

Mas então, por que você se irrita tanto com os assessores de imprensa?

Não, ao contrário! Na verdade, tenho bronca é de qualquer um que esteja militando nesta atividade e se esqueça que o seu produto é notícia. Esses tomam o teu tempo, te ligam nas horas de fechamento, nas horas mais absurdas… Mas não tenho nenhum preconceito! Penso que as corporações, as instituições, os governos, têm que ter as suas estruturas para lidar com a mídia, e essas estruturas, não raro, têm acesso privilegiado a determinadas notícias e essas é o que eu quero, através dessas é que eu quero me relacionar com elas. O resto, doutor, não me interessa — e eu digo isso para eles! Então, pode parecer que há uma certa resistência à função, mas não é. E é muito comum você ver jornalistas se esquecerem que são jornalistas e pensarem que se formaram em assessores, o que não existe.

Pois eu tinha a impressão de que você só atende a algumas pessoas…

Não, eu atendo todo mundo! Aqui (na equipe) todo mundo atende tudo, nós não temos secretária!

Você atenderia ao assessor da Carla Perez? (risos)

O que eu não quero é atender o assessor da Carla Perez pra qualquer coisa que não seja notícia… Mas, atenção! Também não quero perder tempo com o assessor do presidente da República pra qualquer coisa que não seja notícia!

Essa regra vale pra todo mundo, inclusive para amigos como o Moreira Franco, de quem você foi assessor de imprensa?

Todo mundo! E o Moreira é um belo exemplo, porque é uma fonte horrorosa, nunca teve sensibilidade pra saber o que é notícia, mas ele reconhece isso… (risos)

Como foi essa assessoria? Ele era de Niterói, não?

Moreira Franco saiu candidato a deputado federal pelo MDB do Estado do Rio em 1974; era genro do almirante Amaral Peixoto, um político com quem o Partidão tinha relações muito boas. O almirante era um contribuinte contumaz, nas campanhas de arrecadação para as finanças do partido. A política do Partido Comunista Brasileiro era ter candidatos próprios, quadros que ainda estivessem na legalidade, o que era difícil… E como eram poucos, o partido apoiou, aqui e acolá, outros candidatos, numa política de ampliação de alianças.

Trabalhei pela eleição do Moreira em função dessa circunstância. Tive poucos contatos com ele, e muito superficiais, em panfletagens e comícios. Mas em 1976, quando ele se elegeu prefeito de Niterói, novamente foi apoiado pelo Partido, que teve a prerrogativa de fazer algumas indicações. Eu fui levado para a assessoria de imprensa do Moreira como uma tarefa do partido — e continuei trabalhando com o Ibrahim!

Mas com era possível conciliar essas coisas?

Eu ia pra prefeitura de manhã cedo, muito cedo, dava os primeiros encaminhamentos e vinha pro Rio fazer a coluna do Ibrahim . Era muito mais fácil fechar a coluna do Ibrahim do que fechar uma coluna como a minha, hoje.

Por quê?

Não havia essa enorme quantidade de colunas especializadas disputando notícias, e, paradoxalmente, a censura era um fator de vantagem porque a coluna transitava por bastidores, permitia-se abordagens mais informais, declarações em off etc.. Além disso, a figura do Ibrahim era vista como aliada do sistema, então você abria algumas portas quando ligava… O ministro Armando Falcão, que não tinha nada a declarar pra ninguém, era uma belíssima fonte, em off, claro, mas dava notas importantes, antecipava coisas.

Voltando à prefeitura…

Fiquei na prefeitura até o Moreira ir pro PDS, naquele racha do MDB do estado… não me lembro o ano, sei que houve um processo de rompimento no MDB, quando houve a fusão (dos estados do Rio e da Guanabara).

Mas vocês permaneceram amigos?

Ainda que eu tivesse ido pelas razões que já descrevi, a gente criou uma relação de amizade e passei a ser um amigo pessoal dele. E ainda sou, embora as nossas rotinas se tenham distanciado já há muitos anos. Mas ainda nos falamos com freqüência..

Você tem consciência de que a suas notas pautam o Brasil?

Essa é uma característica das colunas no Brasil. Pode-se admitir que a minha faça isso com mais freqüência. Tenho uma equipe talvez mais equilibrada, num jornal grande, a televisão dá mais visibilidade, enfim…

Qual é a missão do jornalismo?

Informar, difundir fatos.

E que tal ‘formar’ cidadãos ?

Quem forma é a família, a escola, é o núcleo de vida do cotidiano do cidadão, é a sua comunidade, a sua cultura, sua religião, isso forma..

Sua opinião sobre o jornalismo praticado hoje, de maneira geral, não parece ser das mais elogiosas…

O jornalismo brasileiro é repetitivo, oficialista, depende assombrosamente do mundo institucional. Alimenta-se daquele Triângulo das Bermudas formado pela Câmara, Senado e Planalto numa intensidade que talvez não interesse ao Brasil verdadeiro, à sociedade, ao cidadão comum. E todos os jornais fazem igual, o que talvez explique aquele fenômeno sobre o qual já falamos, de as colunas brasileiras serem tão mais lidas, e pautarem tão mais do que no resto do mundo.

Percebo que você é generoso com os que o cercam…

Minha maneira de lidar com o mundo nada tem a ver com o fato de exercer o jornalismo. Sou o que sou porque fui educado assim. Se posso ajudar alguém, ajudo. Mas, atenção, não sou uma patronesse da ABBR ou a Irmã Dulce. Estou muito aquém do que um homem com as minhas condições pode fazer! Talvez eu esteja muito além da média do que a sociedade brasileira… Como as sociedades do mundo contemporâneo transformaram-se em predadoras de si mesmas e dos seus semelhantes numa intensidade que o mundo jamais viu, eu talvez não esteja acompanhando esse processo de desumanização na mesma violência e rapidez.

Mudando de assunto: você é o apresentador do vídeo institucional da Infoglobo. A que se deve a sua escolha? Por você representar a imagem do jornal? Por integrar, por assim dizer, a sua cúpula?

Atendi a um pedido da Ana Luisa Marinho (gerente de marketing institucional da Infoglobo), por quem eu tenho um grande carinho; e não posso negar que é motivo de orgulho saber que uma pesquisa identificou a imagem da minha coluna com a do Globo. Quanto a integrar a cúpula do jornal, de jeito algum — sou como todos aqui dentro. No máximo, eu sou alguém que eles ouvem. Além disso, seria uma apatia muito grande, minha, uma negação da minha própria personalidade, não ir lá encher o saco deles. O que eu faço, isto sim, é permanentemente encher o saco deles! Eu provoco, eu me considero um provocador.

Como no caso do Dossiê Cayman, por exemplo?

Eu fui o primeiro a ter a informação de que existia o dossiê. Até hoje acredito que existe um dossiê sério, verdadeiro, como acredito piamente no fato de que o ministro Sérgio Motta e seus companheiros de São Paulo deram um destino qualquer à monumental sobra de dinheiro da campanha da primeira eleição do Fernando Henrique Cardoso. E não creio que esse destino tenha sido a ABBR, ou a APAE ou o Instituto do Coração. Confio no caráter, na probidade, na seriedade de propósito, na sinceridade religiosa do pastor Caio Fábio! Tenho absoluta convicção de que ele estava falando de alguma coisa muito mais séria do que a contra-informação do governo conseguiu fazer crer, com a ajuda da mídia.

Mas ao apostar nessas coisas você corre um grande risco, não é, tem uma enorme margem de erro?

Mal comparando, é como se eu fosse um atirador de elite, tá? O atirador de elite não é o chefe de polícia, ele não é o teórico da segurança pública, não é o ator principal do filme, ele não é merda nenhuma; ele é um figurante, mas tem uma função específica e vital que é a de disparar uma única bala e resolver o problema. Você tem que aceitar como parte desta atividade uma margem de erro, porque se não tivesse margem de erro, o atirador seria o herói do filme. Eu estou aqui dando tiro o dia inteiro. Cabe ao público concluir que minha média de acertos justifica que ele volte a ler a minha coluna no dia seguinte. Eu estou no Globo há 17 anos e na batalha há 30. Todo dia este contrato é renovado por pessoas que eu não conheço. Então, eu acho que a margem de acerto tem sido satisfatória. Quanto aos erros, tenho que agir com honestidade, corrigi-los, desculpar-me e pagar um preço por isso se o atingido resolver ir à Justiça também.

Pai amantíssimo de cinco filhos, por que, em sua opinião, é mais difícil manter um casamento do que cuidar de filhos?

Casamento é mais difícil, é a relação entre dois iguais, entre dois adultos que já delinearam a sua personalidade, seu universo, seus interesses, idiossincrasias, neuras, desilusões etc… O filho, além de não estar ainda maculado por tudo isso, ainda é mais permeável à tua influência e autoridade. Além do que, a relação com os filhos está revestida de um fatalismo maior: não há ex-filho, você tá ali na compulsoriedade! (risos)

Você sabe do poder de sedução que exerce sobre as mulheres da redação, não sabe? (sorriso)

Eu? Nem eu sabia disso! (sério) Nunca fui conquistador nem mulherengo. Casei muito cedo, fui monogâmico. Mais monogâmico do que fiel. (risos)

Explica a diferença, por favor?

Monogamia é um fato estatístico, a fidelidade é um fato afetivo, moral, ético. Além do mais, sempre achei muito trabalhoso pular a cerca. O infiel tem que ter boa memória, tem que guardar uma quantidade monumental de álibis e versões… (ar de cansaço) … Eu vou te dizer, você vê a hora que se chega aqui, a hora que se sai, a rotina que se leva… chega num fim de semana ou numa hora que você possa sair mais cedo, eu quero ir pra casa, eu quero ficar quieto, não quero pensar, quero tomar um banho, quero ver um filme, entendeu?

Que tipo de filme?

Qualquer um. Eu vejo qualquer porcaria…”

Mudando o mundo.


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Em alguns minutos eu iria sair.

Inicio de noite, me preparava para ir trabalhar e, como tinha algum tempo, resolvi sentar na sala e ligar a televisão que transmitia o telejornal.

As notícias não eram muito animadoras.

Como sempre, falavam sobre a crise no oriente médio, aumento de juros e o caso de uma menininha linda que estranhamente sumiu do quarto de hotel onde passava férias com seus pais e irmãos, sem que ninguém tivesse nenhuma pista.

As imagens dos pais, a foto da menina, as noticias de crises, todas aquelas imagens começaram a me inquietar.

Eu precisava de paz.

Daqui a pouco estaria em contato com milhares de ouvintes, precisava estar bem.

Levantei, desliguei a TV e saí em direção a janela que dava visão para boa parte da cidade.

Era uma noite com temperatura agradável, ventava um pouco, fechei os olhos.

Por alguns instantes, tentei não pensar no que vi no telejornal, procurei esvaziar minha mente, fugir daquelas imagens e ouvir o som da cidade.

Abri os olhos como se estivera alí o tempo todo.

Tudo continuava como antes.

No horizonte as luzes de um avião que se aproximava para o pouso.

As luzes dos carros indo e vindo apressadamente, enquanto nas janelas dos prédios televisores ligados, gente acomodada nos sofás.

No céu as poucas nuvens eram ilumidas pelas luzes das rua, dividiam espaço com algumas estrelas que começavam a aparecer..

Aqueles sons eram velhos conhecidos.

Motores de carro ao fundo, vozes distantes, a vida seguia seu curso.

Naquela hora pensei ” Poxa, está tudo aí. A vida continua e , se não fosse aquela televisão, tudo estaria bem agora”.

Eu sabia que, enquanto estava alí, muitas coisas ruins aconteciam no mundo, mas tinham as boas também, de modo que eu não me deteria em nenhuma.

Se eu poderia escolher, optei por ficar com o que é bom, e deixar que a possibilidade de viver o dia chamado hoje, seja suficiente para que eu me sinta em paz.

Não me esqueci das dores do mundo, nem de minhas responsabilidades diante de cada uma, mas me lembrei que, acima disso, sou responsável por mim mesmo e meu dever é cuidar do meu coração, sabendo que meu olhar pode mudar tudo.

Alegria na alegria.

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Uma das atitudes mais reveladoras do carater, é a maneira como reagimos a alegria dos outros.

Ser solidario na tristeza é bom, mas não indica o que de fato existe no coração a medida em que a solidariedade pode incutir sentimento de superioridade.

É claro que nem sempre é assim, mas tem gente que ,adoecidamente ,enxerga o caído como uma oportunidade de mostrar o quão “benevolente” e “virtuoso” é, somente na expectativa se ser reconhecido.

Ao se alegrar com a alegria de um amigo, você não impressionará ninguém, mas revelará o que habita seu coração.

Lembro quando comecei no rádio.

Eu era adolescente sem nenhuma experiência e voluntário.

Estava lá para aprender e esperar por uma oportunidade.

Na mesma condição que eu, um outro rapaz que chegou um pouco antes, uns anos mais velho,  também de olho no dia em que poderia entrar no ar.

Conviviamos bem, até que tivemos nossa chance.

A medida em que eu me destacava, ele se tornava arredio.

Nunca brigamos, mas conviviamos sob tensão.

O tempo passou e as portas começaram a se abrir para mim.

Agora eu estava trabalhando na rádio mais ouvida de São Paulo e ele continuava na primeira rádio, sem muitas oportunidades.

Por acaso nos encontramos na Paulista, pouco antes que meu programa começasse, e ele pediu para conhecer a rádio.

Subimos até o estúdio e, enquanto conversámos,  me disse em tom de mágoa:

– Sorte você estar aqui né? Veja como são as coisas. Essa  vaga poderia ser perfeitamente minha. Foi questão de sorte. Você estava no lugar certo, na hora certa. Foi você, mas poderia ter sido eu que, modestamente, sou até melhor preparado.

Relevei o comentário e não polemizei.

Enquanto minha carreira sempre esteve em ascendente, ele nunca conseguiu ir muito longe.

Ao longo dos anos enfrentei muitas situações semelhantes e confesso que demorei muito para aprender que nem todos os que aparentam proximidade, alimentam no íntimo boa sorte para os amigos.

Sinto isso porque sempre me decepcionava quando um desses amigos pisava na bola.

Recentemente abandonei algo em que acreditava, justamente por me deparar com esse tipo de apequenamento.

O simples fato de crescer na minha condição, era suficiente para alimentar egos recalcados e inseguranças disfarçadas.

A situação cresceu até se tornar absolutamente insustentável com direito a sabotagens e guerrinhas pessoais.

Aquilo me desgastou , mas também serviu para que eu aprendesse demais, sendo que a maior lição foi : agora só dispendo energia e empenho dedicação naquilo que , antes, me fizer crescer como gente.

Tem que valer a pena mesmo.

Mais do que nunca, sei que  feliz é o que se alegra na alegria do outro e sabe compartilhar com ele os frutos da vitória.

Esse não se prende a sua pequenes, e entende que na felicidade do outro, tenho motivos para me alegrar.

Examine seu coração e veja até que ponto é assim.

Se alegre na alegria ! Isso faz uma enorme diferença.

O Forest Gump da Paulista.

Dia desses me lembrei de uma pessoa que trabalhou comigo em uma rádio. Vamos chama-lo de Túlio.

Moreno de olhos claros, não passava de 1,60m de altura e vivia contando mentiras:

“Ontem estive com o presidente da republica e ele disse que é seu ouvinte”, era uma das histórias que frequentemente contava.

“Mês que vem farei uma festa em meu iate e quero que você toque lá”, dizia a um amigo DJ.

Dias antes da tal festa, la vinha o Túlio : ” Tive que colocar meu iate para manutenção e cancelei a festa”. Todos se divertiam esperando a próxima desculpa.

Quando ele ouvia o som das pás do helicóptero do banqueiro que pousava no predio ao lado ,saia correndo interrompendo conversas, cruzando no caminho de quem estivesse na frente e falando para quem pudesse ouvir :” Meu helicóptero chegou, preciso ir ! ” e saía esbaforido, correndo em direção ao elevador.

Na praia, se o helicóptero da policia desse seu habitual rasante no mar , ele pegava o celular, levantava em direção a onde estivesse maior concentração de pessoas e gritava : ”Quem está no comando do Águia hoje ? Manda esse FDP parar de dar rasante aqui no Guarujá porque não estou gostando. Diga que é o Coronel Túlio”. E desligava sob olhares curiosos.

 Certo dia eu estava no ar e ele entra no estúdio com uma camiseta de uma fabricante de helicóptero:

-Legal sua camiseta, Túlio ! Onde comprou?-  perguntei quase provocando.

-É que eu estava pilotando hoje de manhã- responde com ar de naturalidade.

-Sério? você pilota ? – dei corda, imaginando o que viria a seguir.

– Sim, faz tempo.

– Por curiosidade, que pista operava hoje em Marte ? – não sei porque resolvi encurralá-lo em sua mentira.

– Hoje ? – ele olha para os lados, demonstra que não esperava essa e arrisca: Hoje era a pista 1…

– Pista 1 , Túlio ? Mas as cabeceiras de Marte são 12 ou 30.-

– Sim, 1 de um dois é o que eu ia dizer…pista 12 ! Ufa…

– Com quem você voa? Voei muito tempo em Marte, conheço muita gente lá.

Eu percebia que ele tentava sair da enrascada:

– Vôo com uns amigos, mas só estou aprendendo. – Ele tenta diminuir a coisa pra ficar mais fácil sair.

Não deixei:

– Mas com quem ?

– Com um amigo que tem um helicóptero particular.

– Mas se é particular não deve ser homolgado pra instrução, logo as horas que você tem feito não serão registradas, sabe disso né ?

– Sim, não tem problema. Só vôo de vez enquando e ainda estou praticando mais manobras lentas, perto do chão.

 Pobre Túlio. Mal sabia que helicóptero é uma máquina cheia de tendências e quanto mais lento, mais difícil. Fácil é voar alto, com velocidade, como se fosse avião.

 Mas Túlio não sabia :

– Eu fico saindo de um hangar, entrando em outro, coisas assim…

– Poxa Túlio, então você está avançado ! Esse treinamento é quando o aluno já começa a acertar a mão no helicóptero.

– Sim, claro. – sempre com naturalidade- é que já voei muito.

 Não quis levar adiante. Fingi que acreditei e , a partir daquele dia, passei a chamá-lo de comandante “Túlio”.

Virou personagem. Um folclore que diverte a todos e sempre tem uma grande história para contar.

Esse sempre dará rasantes de helicóptero e festas em iates por aí.

Em tempo : Quando perguntado por que não tinha carro, Túlio respondia com ar imperial : ”Prefiro andar de ônibus. Além de poder ter contato com o povo, vejo a cidade mais de perto”.

 E dá-lhe Túlio !

O dia em que entrevistei o padre Marcelo.

O post abaixo me lembrou o dia em que entrevistei o padre Marcelo em uma rádio.

Ele vivia seu auge como pop star religioso e servia como instrumento da igreja católica para tentar barrar o crescimento da igreja evangélica. Coisa de mercado, sabe ?  padre20marcelo20-2033320-20nota20-201

Na porta da rádio, movimentação de fãs/fieis com fotos, fitinhas e carteiras de trabalho para serem abençoadas, enquanto adolescentes animadas imploravam por um autógrafo.

Entre os funcionários da rádio também houve agitação : Alguns enchiam garrafas pet de 2 litros com água para que ele “abençoasse”, outros traziam pedaços de papel para que ele assinasse.

Paciente e mecanicamente ele atendia a todos.

Conversamos por um tempo no ar e, quando acabou a entrevista, ele continuou no estúdio dando autógrafos e abençoando garrafas pet.

Enquanto tocava uma música não resisti e perguntei (fora do ar) com toda educação, obviamente : ” Padre, aqui entre nós, você não se incomoda com o jeito como as pessoas te tratam, não como um mensageiro, mas como a própria divindade? ”

A resposta um pouco irritada foi algo como : “Você já esteve em um hospital visitando pessoas doentes? é muito triste o que vemos lá. ”

Confesso que até hoje tento conectar a resposta com a pergunta, mas, ainda que não tenha conseguido exito, fiquei com aquela imagem de um homem sincero que escolheu ser mensageiro e foi devorado por uma industria que fabrica símbolos.

Ao longo da minha vida ,já vi acontecer algumas vezes e, apesar de não afirmar se é exatamente o caso do padre, pois só conversamos uma vez, sei de gente que começa cheio de sinceridade, mas depois vira refém da própria imagem.

Sem perceber, cede lugar a própria sombra e, ao invés da motivação inicial(seja ela qual for), passa a viver para trabalhar em favor da manutenção do que os outros vem : virou refém das projeções.

O pior é que isso vicia a alma e rouba a liberdade de ser você mesmo.

É por isso que, nos bastidores, vemos tanta gente triste e frustada.

De um lado zumbis mecanizados e do outro, gente histérica em busca de um olhar de seu deus.

O que eles não sabem é que isso tem prazo de validade.

Com o tempo, o ídolo que acreditava ser especial sai de cena em detrimento de um outro, construido pelas mesmas mãos que não aparecem, mas que são dos que mais ganham.

Em níveis diferentes, todos sofremos do mesmo mal e, muitas vezes, ao invés de personificar, projetamos nossos anseios em situações, lugares, bens….

Sofremos todos do mesmo mal: a necessidade de ícones que externalizem aquilo que não se vê, porque na verdade, tudo o que mais queremos não está no palco da Madonna nem na garrafa pet do Padre Marcelo, mas no lugar em que mais nos recusamos a olhar: dentro de cada um de nós.

Pense nisso.

Jorge Camargo.

Sempre adorei música.

Ainda criança, lembro com nitidez eu mexendo no “3 em 1” do meu pai, sintonizando as rádios, procurando alguma para gravar.

Lembro das idas ao Mappin Itaim (agora Extra) com meu irmão para comprarmos discos.

Foi a música que me levou para o rádio, mas confesso que só encarei o rádio como profissão depois que já estava nele.

Antes, meu maior incentivo em estar lá era poder abrir o microfone e falar coisas legais para as pessoas.

Mesmo que aos dezesseis anos não costumamos ter muito a dizer, era bom estar lá.

Entre tanta gente do bem, conheci o Jorge Camargo.

Poeta acima da média, musico virtuoso, sensível a vida, daqueles que você não precisa de tempo para aprender a gostar.

Como aconteceu comigo, foi a música quem o levou até aquela rádio e, com o tempo, percebeu que estava no lugar errado.

Foi comigo que conversou quando sentiu que era hora de outros vôos e eu sabia que tinha razão. Pouco depois eu faria o mesmo e seguiriamos nossos caminhos: eu no rádio, ele na música.

De longe sempre tive notícias de seu excelente trabalho e, especialmente ontem, encontrei algumas de suas músicas na internet.

Descobri seu e-mail, lhe escrevi e fiquei contente em retomarmos contato.

Tenho descoberto que, mais do que nunca, devemos estar próximos de quem tem o mesmo espírito, e compartilha os mesmos sonhos.

Com o Jorge eu sei que é assim.

Na sequência duas músicas dele de presente para você. Uma fala de amor, outra de felicidade.

Veja, deixe seu dia ficar bom :

Jorge Camargo- Fale de amor

Jorge Camargo- A felicidade

Histórias: A noite em que São Paulo parou.

A noite de quinta feira estava dificíl

O mapa da CET apontava congestionamentos localizados acima da média, o que indicava que provavelmente existiam pontos de alagamento na cidade.

Decidi me concentrar nas regiões mais cheias, especialmente as regiões sul, oeste e ABC.

Pedi para que a estagiária priorizasse as ligações de ouvintes porque era assim que teriamos mais condições de saber o que realmente estava acontecendo:

– Não consigo seguir adiante, tudo alagado !

– O carro da frente parou, não vai passar.

– Estou há quatro horas na mesma rua.

Relatos como esses vinham na sequência, indicando que a situação era pior do que imaginei, ainda por cima porque a chuva estava de volta, e aumentando.

A medida em que a noite avançava, o que antes era localizado foi se disseminando e cidade parou.

Dez da noite entraria um programa de músicas dos anos setenta e percebi que naquela condição não se justificaria parar de informar para tocar música.

No meio da correria, pedi para que a estagiária ligasse para o diretor pedindo autorização para não veicular o programa, visto que a cidade estava debaixo d´agua.

Faltavam quinze para as dez :

– Não sei. Me ligue novamente faltando um minuto para as dez para eu decidir.- foi o que o diretor disse ao telefone.

Preocupado prossegui meu trabalho e, faltando um para as dez, sem saber se o programa ia ou não, pedi para que a estagiaria ligasse novamente:

– Ele autorizou.- ela disse.

Aliviado, continuei priorizando o telefone e naquela hora , além de informar, minha preocupação era acalmar gente que estava há quatro, cinco, seis horas no carro.

Entre tantos casos, um me chamou a atenção :

– Estou com meu filho pequeno aqui sobre a ponte, com medo, sem saber o que fazer e fora do carro porque a água já entrou.

Era uma mãe aflita do outro lado da linha sem saber o que fazer.

Felizmente tinha muita gente me ouvindo e pedi para que outros ouvintes que estivessem por alí se aproximassem para que ela não se sentisse sozinho, visto que, além de tudo, tinha medo de ser assaltada.

Pesquisei o que ela poderia fazer para sair de lá e, depois de muias tentativas, achei um caminho.

As ligações não paravam e se aproximava de meia noite- fim do meu horário. Meia noite o computador “assumiria” e entraria a programação musical.

Decidi permanecer no ar e pedi novamente para a estagiária ligar para o editor chefe comunicando.

Ele entendeu que era necessário e continuamos.

Como se não bastassem as ligações, recebo a informação de que as linhas da CPTM pararam e os passageiros se acumulavam nas plataformas e vagões sem saber o que estava contecendo.

Agora, além dos carros parados, eram os trens e ninguém para nos dar informações. Tentamos a CPTM, CET e tudo mais e nada.

Pessoas ligavam de dentro dos vagões sem saber o que estava acontecendo e eu tentava acalma-las.

Ja passava da uma da manhã.

– Saí do trabalho as cinco da tarde, não cheguei em casa ainda !

– Minha esposa ta me esperando na rua há horas, não consigo chegar!

Um a um, cada ouvinte trazia seu problema e eu tentava uma solução.

A estagiária queria ir embora, a CPTM não atendia, e muitas vezes me via sozinho no estúdio tendo que operar a mesa, falar com o ouvinte no ar e operar o telefone também.

Duas e meia da manhã.

A cidade começa a se acalmar, a água diminuiu, os grandes focos de congestionamento também, no entanto o problema da CPTM continua.

Cinco para as três da manhã, recebo ligação de um ouvinte dentro do trem que as linhas voltaram.

Outros ligam confirmando.

Trens andando, cidade destravada, três da manhã, decido encerrar meu trabalho.

Na semana seguinte, encontro na recepção a mulher que estava com criança no carro junto com marido e o filho. Ela levava um bolo e agradecimento pela ajuda.

Eu via a criança sorrindo, a mulher em paz e tive minha recompensa.

Foi um tempo incrivel, uma grande lição do poder que temos ao falar no microfone. Não conheço os casos, nem a história de cada um que estava ouvindo mas sei que naquela noite pudemos fazer a diferença.