O ÉDEN – Leia o Primeiro Capítulo

O ÉDEN

– A surpreendente jornada de um homem em direção a Deus e a si mesmo

Flavio Siqueira – Editora Cia dos Livros

Aquele dia, que parecia mais um entre tantos outros, tinha algo diferente no ar. Ondas de felicidade e a sensação de que no fim tudo pode dar certo. Talvez houvesse uma explicação para o fato de ter acordado tão feliz naquela manhã, mas não estava preocupado com isso. Ele dá um suspiro e novamente repara em sua imagem no vidro. Caminha entre a escrivaninha, os livros, o abajur até chegar à janela e abri-la. Sente uma rajada de vento e sorri permitindo que o ar invada o apartamento e movimente os papéis sobre a mesa.

O ar estava agitado e, apesar da bagunça la fora, a vida parecia estar em ordem, com tudo em seu devido lugar.

O velho Michel se detém mais alguns minutos na imagem daquele dia claro, nos raios de sol que penetravam as folhas das árvores, nas pessoas que caminhavam nas calçadas, falantes, felizes. O vento movimenta seus poucos cabelos brancos e lhe brinda com uma intensa sensação de liberdade.

Ele sorri com satisfação, apoia os braços no parapeito e continua a observar o mundo que pulsa lá embaixo.

Sim. Definitivamente havia algo diferente no ar.

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Primeiro uma música suave.

Como o sol que se põe sem que a gente perceba ou a Terra que gira pelo espaço sem nos dar tontura, um som rasgou o silêncio.

Veio aos poucos, embalando o sonho, fazendo-se perceber sem pressa, dando consistência ao vazio, alterando o ritmo do mundo sem cores e confuso que lentamente ia ficando lá atrás.

Quando o ritmo muda, muda tudo.

Tons agudos, quase sem melodia. O caminho de volta à consciência anunciando que o sono acabou.

Seis e meia.

Ainda ao som do despertador, Ed se arrasta para fora da cama, lutando para reorganizar os pensamentos.

“Por que será que é sempre tão difícil começar o dia?” As palavras jorram do nada, quase resmungando, enquanto procura seus chinelos com a luz ainda apagada.

Estica o corpo de estatura mediana, um pouco acima do peso, mas isso já não lhe incomodava. Seus cabelos, levemente ondulados, ficam rebeldes quando acorda. Passa os dedos nervosamente entre os fios emaranhados, duas ou três vezes, na tentativa de ajeitá-los. Coça a barba escura e rala e prossegue com as mãos sobre o nariz alongado, depois a testa, como quem massageia o próprio rosto.

Abre a janela o suficiente para checar o tempo e inalar o sempre reparador ar das manhãs.

Nas últimas três semanas as madrugadas foram úmidas e frias com temperaturas beirando os dois graus.

Sem a lua e o céu estrelado as ruas esvaziavam-se mais cedo, como se um toque de recolher natural determinasse que fosse tempo de aconchego e lareira.

Com a chegada do inverno a cidade se aquietava, portas fechadas, sem comércio, algazarras, passeios noturnos, namoros na praça, conversas dentro do carro,caminhadas com os cachorros ou crianças correndo para todos os lados. Era tempo de janelas fechadas e cobertas por grossas cortinas cor de nada, poucas visitas, poucos parentes, poucos agitos. Como sempre, a única exceção era o bar dos irmãos Dilman que, mesmo na noite mais fria, insistia em manter as portas abertas com aquelas intermináveis e ensurdecedoras “noites do cover” que agradavam os sempre mesmos dez ou quinze gatos pingados. Fora isso tem sido possível aproveitar a tranquilidade das noites frias enquanto a primavera não chega.

O topo da serra continua encoberto pelo denso nevoeiro que praticamente abduziu a variedade de pinheiros da parte mais alta, perto da casa dos Benedettis. Os carros estacionados junto às calçadas, tingidos pelo orvalho, com vidros embaçados e poças sob o capô, assim como o asfalto ainda molhado.

Essa madrugada foi bastante fria, apesar da expectativa dos meteorologistas de que o dia esquente um pouco.

Geralmente tem sido assim: Noites e madrugadas com temperaturas muito baixas e dias mais agradáveis com sol até o meio da tarde quando, alguma chuva pode cair.

Ed sente o ar gelado cortando o rosto por mais alguns instantes, depois fecha a janela e o quarto escurece novamente.

Não é difícil tropeçar em alguma coisa no meio de tanta bagunça.

Na cadeira de plástico, em frente ao computador, roupas limpas misturadas com as sujas formavam uma pilha de calças, cuecas, meias e toalhas. O pequeno sofá ao lado do guarda- roupas de madeira virou porta jornais velhos e mapas de voo desordenadamente empilhados. Na mesa, em frente à cama, porta incenso, caixa de fósforos, carteira, moedas soltas, chaves, documentos e comprovante de pagamentos com cartão de crédito ficavam em volta da enorme televisão.

No único canto que restava, porta-retratos amontoados guardavam as últimas recordações de um tempo que, além daquelas fotos, só existia na memória e na intensa saudade.

Sair cedo da cama sempre foi um prazer.

Levantar silenciosamente antes do sol, caminhar até a cozinha e aprontar um café para saboreá-lo na xícara pintada a mão, pelo filho, no ano passado, apoiado na janela da sala, esperando o dia chegar enquanto todos dormiam.

Como era bom ficar olhando para o nada, aguçando a audição ao discernir os últimos sons da madrugada: os grilos e seus acordes ritmados, ventos lambendo os ouvidos enquanto o motor de um carro rugia lá longe, talvez com gente indo trabalhar, ou será que estavam voltando de alguma festa?

Um senhor gordo, de gorro, casaco marrom, algo parecido com um jornal dobrado sob o braço, sempre com luvas escuras e uma grossa bolsa de couro, atravessava a rua pontualmente no mesmo horário. Seus passos pesados, constantes, permaneciam audíveis até que sua figura se distanciasse e dobrasse a esquina. A fixidez das árvores compunha o cenário que só se modificava quando uma brisa as envolvia e brincava com suas folhas. Parece que a combinação entre a quietude e a escuridão evidencia o que não percebemos durante o dia.

O cheiro do café quente se misturava com o ar gelado da madrugada, com seus poucos e intensos sons; remédios temporários para a mente turbulenta e o coração espremido.

Ultimamente as coisas tinham mudado muito.

Quando a paz parece ir embora, vem a sensação de que o melhor é sobrecarregar a mente com tudo o que nos faça esquecer que não temos controle sobre nada, que estamos perdidos e ninguém nos vê.

Melhor acordar em cima da hora e apenas se preocupar em não atrasar no trabalho.

A porta do banheiro entreaberta permite que a pouca luz invada o quarto e lhe salve de mais um de seus tropeções matinais na cadeira de plástico.

O corpo ainda está cansado.

“Não adianta querer dormir mais um pouco, Ed…” – resmunga novamente para si mesmo – “… daqui a pouco você desperta, vá em frente”.

A insônia dos últimos meses tornava o começo do dia mais difícil, mas os pensamentos que jorravam em forma de reclamação faziam com que a mente começasse a trabalhar.

Deitar na cama vazia todas as noites não estava sendo tão fácil quanto imaginava. Ainda acordava de madrugada procurando a silhueta esguia e suave de Beth, mas, as mãos passeando entre os lençóis de seda que ela escolheu e o segundo travesseiro, frio, que permanecia ao seu lado, espantavam o sono e a sensação de que, talvez, tudo não passasse de um pesadelo.

Despertado pela crueza da realidade, passava horas acordado olhando para o teto quase escuro, eventualmente iluminado pelos faróis dos carros que refletiam na janela do quarto, tentando entender onde as coisas começaram a dar errado.

Quando casou, acreditava que duraria para sempre.

Conheceu Beth em um curso de piano dado por Eric, seu único primo.

Ainda guardava na memória o dia cinza e sem graça em que a viu pela primeira vez.

Lá fora ventava muito e chovia desde o início da manhã.

Quando ouviu o barulho dos sininhos da porta e na sequência ela se abrindo, pensou que pudesse ser o vento, mas dessa vez não era.

Beth entra sozinha e tenta fechar o guarda-chuva molhado.

Pendura o casaco ensopado e ajeita a roupa delicadamente. Parece que foi ontem: calça bege e camiseta preta, cabelos escuros, finos e lisos. Leve sorriso nos lábios, pele alva e olhos castanhos que se desviavam sempre que percebia alguém a observando.

Eric tocava distraidamente como fazia antes de todas as aulas.

Era apenas o aquecimento. O som dos primeiros acordes significava que em breve visitariam o mundo da música e isso bastava para que os tons das vozes diminuíssem, e a sala fosse preenchida pelo melhor som.

O tempo ficava suspenso.

O velho e desgastado papel de parede com flores vermelhas desbotadas, o carpete cinza e macio, o cheiro peculiar, o som, as pessoas, as conversas, compunham o cenário onde a mágica acontecia.

Além de Bach e da chuva lá fora, sons que se misturavam e complementavam, em nenhum ouvido entrava mais nada.

Enquanto os ouvidos estavam cativos, os olhos relutavam pela liberdade de percorrer os caminhos que quisessem. Os de Ed se detiveram na imagem da menina sentada naquele sofá antigo e desbotado, compenetrada e linda… muito linda.

Não foi tão fácil levantar-se e sentar ao lado dela. Inventar um assunto, puxar conversa, olhar nos olhos, perder a fala e ganhar o mundo.

Ficar sem graça, sem sono, sem coragem. Sorrir por tudo,chorar por nada. Os sons, a textura, o toque e a sensação de que, no mundo, só os dois existiam.

Não houve planos para casamento porque se casaram no primeiro dia, ainda naquele sofá.

Papéis, assinaturas, votos, igrejas e festas aconteceram como formalidades complementares ao que de fato precedeu os rituais e se instalou como realidade desde o momento em que a viu.

Alguns se casam sem se casarem. Para eles não restavam alternativa: casaram-se olhos, sonhos, mentes, esperanças, defeitos e sentidos.

E depois todos os outros dias foram bons. A vida foi feliz até que tudo mudou.

Se existisse um arquivo com as fichas de cada humano catalogadas por comportamento, a dele seria invejável.

Não que fosse santo, sabia de suas limitações. Mas falha alguma lhe inibia a consciência de que era um bom homem, cumpridor de suas obrigações, fiel, respeitador da moral e das leis. Por isso a enorme dificuldade em entender por que as coisas fugiram o controle e tomaram o rumo atual.

“Perfeito sei que não sou” costumava dizer “mas também sei que existe gente muito pior do que eu. Tudo o que quero é trabalhar e ganhar meu dinheiro honestamente, e dar à minha família o que não pude ter”.

Ligou o aquecedor e as luzes do banheiro. Naquela manhã fria, qualquer água – mesmo quente – pareceria um banho de gelo e, tirar a roupa quente de dormir parecia um enorme desafio.

Lembrou-se do sonho da última noite.

Estava perdido em algo que aparentava ser uma floresta. Correndo entre árvores e animais, procurava desesperadamente por algo, mas não sabia o que. Enquanto corria, ouvia vozes e risadas.

Correu até se cansar e chegar a uma espécie de labirinto sem saídas.

Animais vinham em sua direção com olhares estranhos, como se fossem humanos. Sentiu um arrepio na espinha. Parou sem ter para onde ir e ficou esperando apavorado até que a música suave começou, aumentando o ritmo, o volume, se transformando em som de despertador avisando que já era seis e meia.

Beth gostava de falar sobre sonhos. Ed não.

Ela dizia que, mais do que simples decodificações do inconsciente representadas em símbolos, os sonhos poderiam conter mensagens. Gostava de filosofar dizendo: “Se Deus quiser um momento para nos dizer algo, tem que ser nos sonhos. Deve ser quando realmente ouvimos de verdade”.

“O sonho de hoje seria um prato cheio para Beth”. Sorriu só mexendo um canto da boca, sem mudar a expressão, como fazia quando mergulhava em alguma boa lembrança. Ligou o rádio em um rápido movimento, como quem tenta afugentar um pensamento ilícito. “Antes pudesse perder tempo pensando sobre o sono ou qualquer outro tema que não seja meu trabalho e meus problemas”. Suspira. Aumenta o volume. No ar as notícias da manhã:

“…. no entanto, o ministro rebateu as críticas, dizendo que sua decisão foi exclusivamente técnica. Mais informações da Capital do país…”

“Não quero saber sobre decisão de ministro algum. Ah, esses políticos… todos iguais”. Resmungava enquanto se detinha em frente ao espelho e bocejava. Parou por alguns instantes, coçou a

barba, pegou a escova de dente, mudou de estação a procura de qualquer música que lhe ajudasse a parar de pensar.

O som de um teclado eletrônico vindo do quarto se antecipa a música do rádio.

Trata de cuspir a pasta de dente na pia e sai do banheiro,correndo, sem roupa, tentando encontrar o maldito celular que adorava se esconder.

Às vezes desconfiava que o aparelho tivesse vida própria e se escondia na tentativa de vingar as inúmeras quedas da mesa, bolso, mãos…

“De onde vem o som… concentra… de onde vem o som”, se agitava enquanto remexia nas roupas sobre a cadeira, os papéis na mesa, os mapas e uma calça do avesso jogada no sofá…

No sofá! Tenta pegar rapidamente o telefone que ainda toca dentro do bolso da calça sobre o encosto.

“Alô” atende esbaforido, tentando calibrar a voz, sempre desafinada pela manhã.

“Ai Ed, credo! Essa sua voz quando acorda me dá medo”.

Era a voz rouca da secretária da companhia, fiel escudeira da direção.

Rosto com contornos delicados, porém cansados, cabelos ralos e sorriso fácil, fumante inveterada, Cris chegou aos quarenta anos recentemente se sentindo incompleta depois de desistir de ser mãe.

Durante anos lutou indo a todos os médicos, aceitando dezenas de tratamentos, gastou muito dinheiro, acreditando e desacreditando, até que o divórcio trouxe o desestímulo e a vontade de ficar só.

“Pensei que ela ficasse mais bonita assim”. Ed esboça um sorriso enquanto remexe a pilha de roupas a procura da toalha verde e surrada.

“Só se for para dublar filme de terror”– a secretária faz uma pausa esperando alguma risada ou comentário, mas como só ouve “Hmm”, prossegue, mudando para um tom mais sério “O Moreno pediu para que você viesse um pouco mais cedo já que apareceu um voo agora pela manhã. É coisa rápida. Um executivo perdeu a conexão do voo que o levaria para uma reunião e está com certa pressa”. Isso significava que o café seria transferido para bem mais tarde e o banho relaxante das manhãs viraria “banho de gato”.

“Tudo bem” respondeu se apressando em girar a torneira do chuveiro. “Vou me preparar rapidamente. Avisa o Moreno que em meia hora chegarei aí”.

Antes que Cris pudesse responder a bateria descarregou.

“Droga! Devia ter recarregado durante a madrugada”, pensou alto de novo.

Por um segundo lamentou ter que se apressar, mas, enquanto a água quente escorria pelo corpo, fechou os olhos e ficou feliz por ter seu trabalho.

Depois de tudo o que perdeu, o trabalho parecia a última conexão com a normalidade.

Durante quase dez anos viveu momentos muito felizes ao lado de Beth e depois, com o nascimento do Gabriel, a vida só melhorou.

Descobriu cedo que ser pai lhe tornava alguém melhor.

Ainda que, por força da profissão, não pudesse estar tão presente quanto gostaria, fazia o possível para compensar a ausência com bons momentos, presentes, conversas, carinhos e passeios.

A última vez que se encontraram foi no aniversário de cinco anos, há sete meses.

Naquele dia Ed apareceu na casa de Beth de surpresa, logo pela manhã e pediu para acordar o filho.

Entrou tentando não fazer barulho, passou pelo piano, viu que seus antigos e amados quadros ainda estavam presos na parede sobre o sofá e subiu a escada sem dizer nada. A porta do quarto estava entre aberta facilitando a entrada silenciosa.

Fugiu do carpete de madeira, pisando somente no tapete colorido, cheio de imagens de personagens de desenho animado em meio a dados gigantes, para não fazer barulho.

Gabriel dormia esparramado pela cama com a camiseta do super-herói que o pai lhe deu e um shortazul, já ficando pequeno.

“Como esses anjinhos crescem rápido”, pensou enquanto se deteve por alguns segundos olhando para o filho.

– Gabriel… acorda querido, é o papai… acorda…

Ele se mexe na cama, vira para o outro lado, dá um suspiro continua dormindo.

– Filho, hoje é seu aniversário, vamos passear… acorda…

O menino se mexe de novo, esfrega os olhos e vê o pai. Abre um sorriso e senta na cama visivelmente lutando para permanecer com olhos abertos.

– Vamos tomar um banho, querido, fala Ed enquanto acaricia o cabelo despenteado do filho. Quero te levar para passear, vamos ao parque, vamos brincar…

Gabriel fica em pé na cama e abraça o pai.

Agora suas lembranças avançam para a tarde de sol entre árvores, brinquedos, pipoca e algodão doce.

Há quanto tempo não comia algodão doce!

Idas ao parque sempre os aproximavam.

Gostava de sentar no banco de madeira com pintura verde descascando, perto do enorme lago, cheio de patos e gansos que iam para todos os lados.

Sob a sombra da “árvore da casa do gigante” – era assim que a chamavam – ficavam horas falando sobre um maravilhoso mundo que só existe na cabeça das crianças.

Gabriel nutria uma incrível curiosidade em relação à vida.

Gostava de fazer perguntas, queria saber do que as coisas são feitas, por que se fala assim e não assado, porque o mundo é como é, e as pessoas nem sempre são boas.

Com prazer e, sempre perto do filho, contava histórias, respondia perguntas, fazia comentários e se espantava com cada sinal de que o bebê já era um menino.

Depois jogaram bola na grama e correram para ver um coelho no colo de uma adolescente gordinha, de aparelho colorido nos dentes, óculos com molduras vermelhas e sorriso com lábios sempre cerrados.

Gabriel desconfiou: – Não existe coelho cinza, papai. Todos são brancos.

Ed sorriu e explicou que existem coelhos de várias cores.

– Um dia você me dá um coelho como esse? Perguntou o menino enquanto olhava fixamente para o bichinho.

– Mas onde você vai guardar um coelho? Eles precisam de espaço, jardins, lugares para brincar. Ed se aproximou do bichinho, sorriu para a menina e acariciou as longas e peludas orelhas.

– Se você deixá-lo o dia todo em uma gaiola fará mal a ele. Agora voltava o olhar para o filho.

– Não, pai. Eu o deixo solto dentro de casa. A sala é grande e, se a mamãe se incomodar, ele vai morar comigo no quarto.

– Tá bom querido – Ed sorria, não exatamente pelo comentário do filho, mas por seu jeitinho especial de tentar conciliar as coisas –

Vamos pensar no assunto, está bem?

Gabriel só fez um “sim” com a cabeça, retribuiu o sorriso e correu desafiando:

– Vamos pai, vamos! Olhe como eu corro rápido. Consigo chegar lá na ponte em dez segundos.

– Cuidado para não cair, filho. Chegando à ponte me espera, não suba sozinho.

A tal ponte era uma pequena passagem sobre o lago. Nas duas extremidades pequenos degraus e, sobre a curvatura, taboas de madeira onde se fixavam os dois corrimãos também de madeira.

Às vezes subiam para jogar pedaços de pão para o cardume de peixes famintos que disputavam com os patos cada migalha.

Enquanto alimentava os peixes ao lado do filho, repentinamente a voz do vovô Michel submerge de algum ponto de suas mais remotas memórias:

“Paternidade não se aprende. Ou você é pai desde que nasce ou nunca será”.

Apesar de sensível e muito inteligente, vovô Michel teve uma infância conturbada e, especialmente depois que ficou viúvo, acabou se transformando em um homem cheio de mágoas, com enormes dificuldades para lidar com pessoas e sentimentos, ao ponto de nunca conseguir se relacionar por muito tempo com ninguém.

Todos sabiam que era necessário manter certa distância para que as coisas não se complicassem.

Ainda na primeira infância, Ed perdeu os pais em um acidente de carro e vovô Michel o criou.

Ensinou muitos valores importantes como seriedade de caráter e apreço ao trabalho, mas por outro lado parece que o jeito frio e distante do avô lhe abriu uma fenda que iria atrapalhar em todos os futuros relacionamentos.

Nunca se esqueceu do frio na espinha que sentia quando o avô voltava para casa e de como repensava em tudo o que fez durante o dia para evitar que algum detalhe escapasse e pudesse colocá-lo em maus lençóis.

Pequenos esquecimentos, descumprimento de tarefas, uma nota ruim… tudo continha um grande potencial de tirar o avô do sério, o que significava severos castigos.

Por não saber lidar com sentimentos, vovô Michel evitava aproximar-se do neto e isso fez com que Ed aprendesse a conter demasiadamente qualquer tipo de impulso que ameaçasse as regras impostas pelo avô.

Chegou o tempo em que as emoções não saiam mais e a única maneira de sentir segurança era se preservando de tudo e de todos.

Procurava ser simpático, tinha muitos amigos, teve muitas namoradas, mas sempre que algo parecia fugir do controle, Ed simplesmente desaparecia.

Foi assim com todos e agora, com Beth, tudo se repetia.

Mas o fato de estar reproduzindo o ciclo iniciado pelo avô, que no fim acabou lhe afastando de tanta gente, ficou mais claro depois da paternidade, afinal, lhe apavorava a ideia de que o filho também fosse assim.

Isso fazia com que constantemente inventasse mecanismos para suprir a possível deficiência: “se posso aprender a pilotar aviões por que não posso aprender a ser pai?” Pensava como se uma coisa pudesse ter conexão com a outra.

Mas agora estavam mais distantes do que nunca.

A separação abriu feridas, mas talvez a maior fosse a distância do filho.

Enquanto tentava lidar com as emoções que esses pensamentos despertavam, se lembrou que Cris pedira para se apressar.

Fechou a torneira do chuveiro e lamentou ter deixado a toalha no quarto.

Saiu molhado – coisa que Beth odiava -, deixando um rastro de água, primeiro no tapete verde com inscrições em japonês que ficava logo na saída do banheiro, depois continuou pingando pelo chão até alcançar a toalha que deixou sobre o sofá enquanto falava ao telefone.

Enxugou-se ali mesmo, se arrumou e saiu sem comer nada. O nevoeiro se dissipara.

Ao sair de casa sempre olhava o céu, não só para checar as condições meteorológicas, mas como um ato inconsciente de quem avisasse as nuvens que logo estaria entre elas.

Voar sempre foi uma paixão e, mesmo que estivesse na profissão há dezesseis anos, ainda era capaz de se orgulhar do que fazia e aproveitava cada pouso e decolagem.

Quando, ainda muito jovem, na escola de pilotagem, queria comandar grande aviões. A sensação de pilotá-los lhe fazia sentir poderoso. Ter em suas mãos centenas de vidas lhe tornava forte.

Há alguns anos voava aviões de pequeno porte para uma companhia de táxi aéreo, mas agora contava com a indicação de amigos para que pudesse tentar a sorte em cias maiores.

Era uma segunda-feira.

Às sete da manhã e, apesar da necessidade de um casaco, o dia já estava um pouco mais quente.

Hora de enfrentar o trânsito, estranhamente não tão ruim como de costume.

Dirigiu ouvindo músicas, prestando atenção nas letras, cantarolando baixinho na tentativa de estabelecer relação cordial com a normalidade.

“Faço a minha parte fingindo que está tudo bem, me comporto, me esforço para ser simpático e sorridente com todos e, em troca, devolvam – me a sensação de que tudo vai ficar bem” – falou baixinho sem ter a mínima ideia se de fato alguém lhe ouvia para aceitar o acordo.

Estava vazio por dentro, mas a vida continuava, não podia se entregar.

A separação revelou que já não sabia mais lidar com suas angústias interiores. Elas tinham vazado para o casamento e interferido em sua relação com Beth.

Semáforo vermelho. Ruas movimentadas, pessoas atravessando a faixa de pedestres com pressa. Uma senhora segura à bolsa em uma mão e a criança com uniforme da escola na outra.

Um homem de terno e óculos caminha lentamente, tentando ler o jornal, provavelmente à página de economia. Dois jovens passam conversando, talvez sobre o clássico de ontem à noite, cruzam com um gordinho de fones no ouvido que, ao reconhecê-los, para, lhes cumprimenta e volta com os amigos para o outro lado da calçada.

Estranho pensar que, apesar de nossas vidas estarem fora dos trilhos, tudo continua normal e ninguém deixa de seguir sua própria rotina.

Seu mundo pode estar destruído, as esperanças simplesmente evaporarem, mas lá fora nada acontece. Tudo permanece exatamente como sempre foi.

O semáforo abre.

A distância de Gabriel lhe dava a sensação de fracasso, aguçando o sentimento que alimentava em relação à teoria do vovô Michel.

Engata a marcha e acelera.

“Se existisse um jeito para fazer com que as coisas dessem certo, se eu soubesse a fórmula para não errar tanto… por que a vida tem que ser tão difícil?” suspirava, demorando um pouco mais no piscar de olhos.

Aumentou o volume do rádio. . .

Por alguns segundos parou para prestar atenção na voz suave da cantora que dizia “Lance seus olhos ao oceano, lance sua alma ao mar, quando a noite escura parecer infinita, por favor, lembre-se de mim”. Aquilo lhe fez bem.

Olha para o velocímetro, diminui a velocidade, aciona a seta e entra a esquerda, atento ao cruzamento perigoso adiante.

Do outro lado vem uma caminhonete. Ele para e dá passagem.

Espera que uma senhora segurando um cachorro pela coleira e falando animadamente ao celular atravesse na faixa, em frente ao carro. Quando pensa em continuar, pisa no freio e recebe o agradecimento de um rapaz suado, correndo com um boné amarelo e um agasalho branco fechado até o pescoço.

Retoma a aceleração e só diminui novamente para entrar na rotatória. Passa duas saídas e entra na terceira em direção ao aeroporto.

Aciona a seta novamente prossegue pela faixa da direita diminuindo a velocidade para passar pela guarita com a placa “Identifique-se”.

Sem parar abaixa o vidro e cumprimenta o guarda que o reconhece.

Com menos trânsito chegou mais rápido. Parece que as madrugadas frias espantam parte das pessoas que preferem dormir um pouco mais.

No estacionamento poucos carros. Apenas os de alguns funcionários, um táxi e duas motos. Estacionou na vaga de sempre.

Era boa porque ficava entre a parede e um pilar de sustentação do toldo, evitando que outros estacionassem muito perto e algum motorista descuidado batesse a porta com força no seu carro.

Caminha até a entrada do hangar e como sempre seu Jonas mascava um chiclete com a cabeça enfiada em algum motor de avião. Beirando os sessenta anos, magro, calvo e de macacão sempre sujo, o mecânico, além de confiável e sempre presente, era um grande contador de histórias, conselheiro e muito querido por todos.

Naquela manhã parecia sério.

– Bom dia, Seu Jonas. Já tomou café? – perguntou Ed enquanto caminhava em direção a sala do Moreno para o tradicional “briefing coffe

do inicio de expediente, quando falavam sobre os voos entre goles de café e piadas de aeroporto.

Às vezes seu Jonas participava, mas levando em consideração a resposta, ficou claro que hoje o assunto era mais sério.

– Bom dia, Ed. O Moreno está lhe aguardando. Passe na sala dele. Limitou-se a responder sem tirar a cabeça de dentro do motor.

Sem ter muito tempo para pensar e, apenas preocupado com o voo – razão do telefonema de Cris logo cedo – Ed caminha até a sala do chefe enquanto tira as berimbelas com três faixas do bolso da camisa e começa a ajeitá-las nos ombros.

A porta permanentemente aberta hoje estava fechada.

Uma leve batida e a voz grave e modulada de Moreno o convida para entrar.

Sentindo que as coisas não iam bem, abre a porta e para com um pé dentro e outro fora da sala.

– Bom dia, chefe. O que houve? Algo errado?

– Entra meu amigo. Moreno apóia as duas mãos grandes sobresobre a mesa, levanta-se com certa inquietação e se aproxima de Ed.

Olha-o nos olhos, em um misto de ternura e firmeza:

– Faz dez minutos que estou sentado naquela maldita cadeira tentando escolher as melhores palavras para dar a notícia, mas cheguei a conclusão de que o melhor é ser direto.

Ed não abre a boca. Sente um frio na barriga e o coração batendo com mais força. Continua em pé, agora totalmente dentro da sala e encostado na porta que acaba de fechar. – Tentei te ligar, seu celular estava fora de área.

– A bateria terminou logo depois que falei com a Cris – responde

Ed quase não articulando as palavras de tanta ansiedade.

– Me diga, Moreno, o que aconteceu?

– Agora a pouco recebi a ligação da Beth dizendo que o Gabriel sofreu um acidente responde de sopetão, enquanto abaixa a cabeça por breves instantes como quem tenta recuperar a confiança, para em seguida, rapidamente a levantar em direção ao amigo sem saber que reação esperar.

Ed engole seco e permanece quieto, olhando para o chão, atento as palavras pausadas e firmes do chefe.

– Ela tentou falar com você, mas não conseguiu por isso me ligou. Disse que estava com o menino no carro no início da manhã indo visitar o pai dela, quando em um cruzamento, um caminhão acertou o carro. Beth se feriu levemente, mas Gabriel, que estava no banco de trás, se machucou bastante.

– Como ele está? – Sussurrou Ed como se tivesse acabado de levar um soco no estômago.

– Não sei exatamente. Parece que é serio, mas os médicos ainda precisam de uns exames. A Beth me ligou do hospital, está muito abalada e pediu para te avisar.

– O que eu faço? Em que hospital eles estão?

– Estão no Hospital Municipal de Saint Richard, há mais de 400 km daqui Moreno estava em pé e colocou as mãos sobre o ombro do amigo:

– Ed, pedi para que o Loureiro viesse e ele vai fazer o seu voo. Se achar que está em condições, libero o Azteca para você ir ver o Gabriel. Tem uma pista de pouso perto do hospital. Voando, em pouco mais de uma hora estará lá.

Ed sabia que precisava ser forte. Se em algum momento seu filho estivesse precisando dele, seria agora. Tinha que ser frio e ajudá-lo. Definitivamente não era hora de se desesperar.

– Obrigado. Vou fazer a notificação de voo e decolar o mais rapidamente possível. Preciso ir logo ver como estão. Na volta guardo o avião e retorno com meu carro.

Moreno permaneceu quieto, apertou o ombro de Ed como sinal de solidariedade. Depois pegou o telefone e pediu para o seu Jonas fazer a inspeção na aeronave.

– Vá com calma meu amigo, tenha fé que vai dar tudo certo e se necessitar de algo, conte comigo. Preciso que retorne o avião até o por do sol. Tenho um voo com ele. Fez uma breve pausa e continuou: – Sei que Beth e Gabriel precisam de você agora, por isso vá com o avião, depois a gente resolve o que faz. Ele parece se lembrar de algo abre uma das gavetas da escrivaninha de madeira e pega um aparelho de telefone celular. – Leve esse com você. Não dá para ir com o seu descarregado.

Ed levantou o rosto olhando nos olhos de Moreno, cerrou os lábios, pegou o celular. Depois suspirou e concordou brevemente com a cabeça. Sem dizer nada foi fazer a notificação de voo e saiu para encontrar seu filho.

20 comentários em “O ÉDEN – Leia o Primeiro Capítulo

  1. Olá Mano!!
    Sou de Maceió-Al
    Não encontrei o livro aqui, tem algum seti que possa comprá-lo?

  2. Olá Flávio, iniciei a leitura do primeiro capítulo, gostei, adoro livros que passam muitos detalhes, faz vc entrar na história, viver junto com a leitura, assim que encontrar seu livro irei comprar, abraço.

  3. Saga O Éden…Estou sem paciência de pesquisar c proceder para baixa -lo por aqui até q eu possa adquirir o livro e a avalanche do dia me disperse o interesse .Pode deixar o link pra mim,por gentileza? Obrigada

  4. Este livro é lindíssimo! Esclarecedor, enternecedor, luminoso…. Sou grata por ter tido o privilégio de o ler e de o ouvir.

  5. Boa tarde!! Gosto muito de seus textos!! Então, permita-me pequena observação: no primeiro capítulo – disponível no blog – a conjugação do verbo Esvaziar foi digitada incorretamente.
    Paz e Luz!!!

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