A carta da Letícia

Abri a caixa dos correios e a carta estava lá. Estava solta, escrita à mão, não havia envelope. Dispensei no lixo o monte de papeis publicitários e, antes mesmo de voltar para pegar o elevador, curioso, tratei de ler: “Letícia Valadão” e um endereço na parte de cima.
O texto começava assim: ” Prezado Leitor (a). Lamento não ter conseguido falar com você pessoalmente. Mas tenho informações importantes para lhe transmitir”.
Prossegui atento a leitura até perceber que se tratava de uma carta padrão convidando as pessoas para conhecerem a igreja da tal Letícia Valadão. Era uma cartinha religiosa.
Não tem importância. Em tempo de overdose de mensagens, de campanhas publicitárias cada vez mais elaboradas, nada como um manuscrito para nos prender a atenção.
Parece que estamos nos distanciando do contato humano.
Tudo ficando frio, cheio de técnicas de marketing, buscas por curtidas, por views, esvaziados de humanidade.
Isso inclui nossas próprias comunicações.
Buscamos a intermediação de especialistas, as “técnicas certas” ensinadas pelo livro de autoajuda ao invés de nos expormos as imperfeições dos contatos humanos.
A Letícia não contratou gráficas, nem fez artes miraculosas, nem criou manchetes chamativas com frases de efeito. Ela só colocou uma cartinha manuscrita em minha caixa de correio.
Mesmo que eu não vá conhecer a igreja da Letícia, também não quis jogar a carta fora. Eu li.
Naquele texto, mais do que uma simples mensagem proselitista, havia uma mulher que tratou de escrever, provavelmente muitas cartas, se esforçou e, mesmo que não tenha me convencido a sua fé, fez de sua atitude um motivo de reflexão e me deu uma razão a mais para acreditar que, apesar dos tantos alaridos, tudo o que procuramos é o encontro humano e o reconhecimento mútuo, afetos, mesmo que expressos em uma cartinha qualquer.

Tem alguma coisa errada…

… Não te parece que alguma coisa está fora do lugar? E se não estivéssemos tão distraídos com nossos brinquedinhos e tão ocupados com nossas importâncias egoístas? E se não aceitássemos as “verdades” que nos mantém crédulos, comportados, comandados, absolutamente acomodados? E se pensássemos?
Somos a manada, passiva, guiada por poucos homens preocupados em nos engordar até o dia do abate. Somos o boi, que em meio a tantos outros pensa “o que sozinho posso fazer?”.
Então o político nos distrai, a religião nos amansa, a sociedade nos vigia.
Cada um por si, respeitando as autoridades, sendo bondoso e fiel cumpridor das leis. “Tenha fé, meu filho, um dia deus te recompensará.”
Não te parece que alguma coisa está fora do lugar?