Universos sobre pernas

Nesse espaço infinito que chamo de universo, entre galáxias, planetas, cometas chocando-se, estrelas que nascem e morrem, entre o mistério em constante movimento há um micro cosmos caminhando sobre pernas. Sou espaço que se reconhece como individuo, maravilhado por fazer parte de algo que não posso nominar.

Sinto-me incapaz de entender o cosmos que sou e isso me inquieta. Em que tipo de universo vivo? Que universo sou? Recorro à fresta da ciência, há tantos limites. A filosofia me ajuda na busca por significados, mas em cada resposta novas perguntas, tantas, tantas, tantas, novos dilemas, paradoxos que me mantém em movimento.

Movimento-me. Vivo no tempo que sei relativo. Grita em mim o contraste entre o eterno que habita este vasto espaço contido em um corpo, templo do que não cabe na cronologia que modifica meus traços, meus pensamentos, o mundo que me veste.  Modifico-me e mal percebo.

Sobre a janela anseio respostas. Suspiro com saudade da casa que desconheço. Suspiro. Deixo que os olhos passeiem entre o horizonte e as estrelas, que descansem sobre o teto escuro da noite na Terra e se percam, ultrapassam camadas de ar, de gases, de verdades, de crenças e se percam…

Agora tudo é silêncio. Possibilidades. Vagando, deixei de saber. Encanto, universos que se encontram, galáxias infinitas, não posso calcular, os fenômenos geram explosões devastadoras, mundos que nascem e morrem contemplados pelo silêncio do abismo em movimento, voraz em sua lógica caótica, promotora de vida, de morte, de espantos.

Sou além grão de poeira das estrelas. Forma que temporariamente assume alguma consciência e depois vai, vira outra coisa, reintegra-se ao mistério.

O corpo onde não caibo perderá a forma. Universo decantando-se em outros universos, assumindo múltiplas paisagens, outros mundos que se desfazem.

Cada expressão de consciência é parte de uma única mente. Fragmentos do absoluto reconhecendo-se entre o lapso de vida e morte, caminhando em busca de significados, esforçando-se para permanecerem, relutando em ir.

Mas talvez o único jeito de permanecer seja colocando-se no fluxo do movimento que não cessa, que modifica todas as coisas, que nos desfaz, quem sabe, para lembrar que somos parte do todo e que o todo se reconhece ao nos reconhecermos.

Somos consciências do universo.  Mistérios aculturados contidos em identidades que anseiam pelo céu.

O céu, abrigo de mistérios indecifráveis, contemplados em nossas frestas, expressões simétricas dos mundos que habitam esse espaço que sou, universo que caminha sobre pernas.

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A verdade…

Mas a verdade não está nas certezas e a fixidez é uma utopia. É a coragem de cair no vazio e deixar que o vento expurgue a parte que gangrenou, que a perspectiva, antes acomodada, se altere radicalmente: falta ar, faltam palavras, faltam certezas, absolutos que deixam de ser, afirmações relativizadas pelo mistério, pelo vazio.
O vazio. Espaço entre certezas. Oceano entre pequenas ilhas. Buracos negros entupidos de verdades que jamais serão posse de quem quer que seja. Ora refletem aqui, depois se expressam lá, fragmentando-se em tudo, preenchendo espaços entre nossas certezas mais inseguras, propondo movimento, promovendo eterna ameaça para quem tenta manter o controle sobre o que não há.